Jordan: "Volto como jogador ao esporte que amo"

Aos 38 anos, o melhor atleta da NBA de todos os tempos ressurge no Washington Wizards.

WASHINGTON - Após 31 meses de aposentadoria, Michael Jordan, o maior jogador de basquete de todos os tempos, confirmou ontem que voltará às quadras na próxima temporada da NBA. O ex-astro do Chicago Bulls, seis vezes campeão da Liga, assinou contrato por duas temporadas com o Washington Wizards, do qual era vice-presidente de Operações desde janeiro de 2000.

"Volto como jogador ao esporte que amo", disse Jordan, que vai doar o salário da primeira temporada a instituições sociais envolvidas com a assistência às famílias das vítimas dos atentados terroristas em Nova York e Washington.

"Estou convencido de que o Washington Wizards é um time capaz de lutar para ir aos playoffs da NBA", disse. "A chance de ensinar nossos jovens atletas e elevar o nível do jogo teve peso considerável em minha decisão." O primeiro treino de Jordan com o time será no dia 2 e o jogo de estréia no dia 30, contra o New York Knicks, no Madison Square Garden. No dia 19 de janeiro, voltará a Chicago, para enfrentar o ex-time.

Nos Wizards, que venceram apenas 19 jogos na temporada passada, Jordan passará pela estranha experiência de dividir a quadra com atletas como Jahidi White, Richard Hamilton e Courtney Alexander, que não passavam de crianças quando Jordan tornou-se o rei dos Bulls. Ou como Kwame Brown, que ajudou a escolher no draft, em junho. Terá de obedecer às ordens do técnico Doug Collins, que, ainda como dirigente, contratou em abril. Nos anos 80, Collins comandou Jordan por três temporadas no Chicago Bulls.

Este é o segundo retorno de Jordan à NBA. Em julho de 93, abalado pelo assassinato do pai, trocou o basquete pelo beisebol. Em 1995, voltou à NBA, usando a camisa número 45 do Chicago Bulls - o time foi eliminado das semifinais da Conferência Leste pelo Orlando Magic, que tinha o pivô Shaquille O'Neal. Em 1996, já com a tradicional camisa número 23, Jordan voltou definitivamente ao estrelato, levando os Bulls a uma segunda seqüência de três títulos.

Em 99, deixou as quadras, dizendo que a decisão era "99,9% definitiva". Já pensando em voltar, Jordan recomeçou a treinar há cerca de seis meses, com a desculpa de que precisava perder os quilos extras adquiridos na aposentadoria e participou de vários jogos com atletas da NBA num ginásio em Chicago.

Aos 38 anos, melhor jogador da história vai atuar em time ruim e doar salário Jordan volta, e de graça

DA REDAÇÃO

Aos 38 anos, o mais famoso jogador da história do basquete decidiu voltar às quadras.
Em um comunicado distribuído ontem, Michael Jordan, hexacampeão da NBA com a camisa do Chicago Bulls, anunciou que vai defender o Washington Wizards na temporada que começa no final do mês que vem.
O jogador abriu mão do salário da primeira das duas temporadas que seu novo contrato abrange. Disse que doará o dinheiro para as vítimas dos atentados terroristas nos EUA, há duas semanas.
"Estou entusiasmado em jogar pelos Wizards. Temos condições de armar uma equipe capaz de lutar por um lugar nos playoffs", afirmou o atleta no comunicado.
O astro, que, em sua última temporada (1997/1998), ganhou um salário anual de US$ 36 milhões, vai receber agora US$ 1 milhão por campeonato -mínimo que um jogador com mais de dez anos na liga pode ganhar.
Para cumprir as exigências da liga norte-americana, Jordan será obrigado a deixar o cargo de presidente de operações dos Wizards. Além disso, ele teve de abrir mão das ações que possuía na equipe de Washington -entre 5% e 10% do capital.
Quarto maior cestinha da história da NBA, Jordan optou pela discrição ao anunciar a volta em respeito às vítimas dos atentados.
Há alguns meses, ele havia afirmado que poderia voltar a jogar. A partir daí cresceram as especulações sobre seu provável regresso. O jornal "Washington Post" chegou a divulgar que o anúncio da volta aconteceria na segunda-feira. Errou por um dia.
O único entrave para o esperado retorno referia-se ao uso da imagem do jogador em jogos de videogame. O contrato de Jordan quando atuava na NBA, firmado com a liga em 1992, permitia ao armador negociar sua marca pessoal para a comercialização de quase todos os produtos possíveis, exceto videogames.
O problema é que o armador assinou, em 1998, um acordo com a EA Sports para vender o mesmo produto. A empresa perderia a exclusividade da imagem de Jordan com a volta do atleta às quadras, o que não deve mais ocorrer.
Jordan, que entrou para a NBA em 1984, faz agora seu segundo retorno às quadras. Tricampeão com o Chicago Bulls (1991, 92 e 93), o atleta deixou o basquete, pela primeira vez, em 1993.
Jogou beisebol um ano, mas não obteve sucesso. Voltou à liga em 1995 para conquistar mais três títulos (1996, 97 e 98).
O jogador não concederá entrevistas até segunda-feira que vem, quando fará sua reaparição. Seu primeiro treino oficial com os Wizards será no dia seguinte.
A estréia oficial na nova equipe está marcada para o dia 30 de outubro, no Madison Square Garden, contra o New York Knicks.
"Estou feliz com a volta de Jordan, que deu tantas alegrias aos fãs de todo o mundo. Nesses tempos difíceis, será um pouco de alegria para nossas vidas", disse David Stern, homem-forte da NBA.
O jogador vinha treinando com os jogadores dos Wizards desde a temporada passada, quando exercia o cargo de presidente de operações do time.
O armador será comandado pelo mesmo treinador, Doug Collins, que o dirigiu no começo de sua carreira na NBA.
Além disso, contará com a companhia de Christian Laettner, companheiro no Dream Team original dos EUA, que disputou os Jogos de Barcelona, em 1992.
Jordan, porém, não terá a seu lado seu amigo Charles Barkley, que havia prometido voltar às quadras caso o armador também concretizasse seu retorno.
Barkley, entretanto, desistiu da empreitada ao ver que os Wizards contavam com um elenco bastante limitado para esta temporada.
"Sei que há pessoas com maus prognósticos [a respeito de sua volta". Mas, para um ganhador, não fará falta, necessariamente, conquistar mais um título", declarou Jordan há alguns dias.
Com a volta do jogador, porém, não está descartada a hipótese de que o Washington Wizards receba mais reforços a médio prazo.

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Com agências internacionais

NBA se prepara para faturar
DA REDAÇÃO

Michael Jordan pode ter aberto mão de seu salário para recomeçar sua carreira no Washington, mas todo o mundo da NBA vai ganhar muito dinheiro com o retorno de seu maior mito.
Ontem mesmo, no seu site, os Wizards, logo abaixo da notícia da volta de Jordan, anunciavam a venda de ingressos e camisetas já com o nome do astro.
O impacto Michael Jordan também mudará as transmissões de TV. Executivos da NBC, que possui os direitos da liga, disseram que o time de Washington, que não teria nenhum jogo transmitido, deve assegurar, com Jordan, pelo menos 11 partidas ao vivo.
O lendário camisa 23 do Chicago Bulls foi o grande nome que atraiu as multinacionais para patrocínios milionários no esporte.
Desde que estreou na liga norte-americana, em 1984, o jogador já assinou contrato com empresas como Coca-Cola, Quaker e McDonald's, entre outras.
Segundo a revista "Advertising Age", Jordan construiu sua carreira como o primeiro garoto-propaganda de um mundo globalizado (seus patrocinadores realizavam a mesma campanha em todos os continentes).
Um estudo publicado pela revista norte-americana "Fortune" mostrou que a carreira de Jordan gerou uma movimentação de US$ 10 bi na economia dos EUA.
A Nike virou gigante de seu setor graças ao carisma de Jordan, que vendeu US$ 2,6 bi de produtos da empresa com seu nome.

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Com agências internacionais

Nova equipe é das piores da liga
DA REPORTAGEM LOCAL

Em toda a década de 90, qualquer coisa que não fosse o título da NBA seria pouco para Michael Jordan. Agora, em mais um recomeço da sua carreira, o objetivo é muito mais modesto.
O Washington Wizards, equipe em que Jordan vinha exercendo o cargo de presidente de operações desde o ano passado, tenta, nesta temporada, apenas chegar aos mata-matas.
Na última edição da NBA, os Wizards fizeram a pior campanha da Divisão do Atlântico, com 63 derrotas e apenas 19 vitórias.
Pior: o time só teve retrospecto melhor que duas equipes, Chicago Bulls, em franca decadência após a saída de Jordan e outras estrelas, e Golden State Warriors.
Instáveis em quadra, os Wizards utilizaram 21 jogadores na última temporada -nenhum deles disputou as 82 partidas do time na temporada regular.
Além disso, a equipe de Washington teve a segunda pior defesa da última temporada.
Seus 99,9 pontos sofridos por partida, em média, só não foram piores que os Warriors, que levaram 101,5 pontos por jogo.
Neste ano, sua principal aposta para erguer a equipe, além da volta de Jordan, é o novato Kwame Brown, que saiu diretamente do ensino médio para encabeçar o último draft da NBA.
Brown, de 19 anos e 2,11 m, assinou um contrato de três anos em que receberá US$ 11,9 milhões.
Periodicamente as equipes apostam em gigantes no sorteio universitário. Na maioria das vezes esses talentos não vingam.


Com raras contusões, Jordan jogou 93% de todas as partidas possíveis
Idade e lesões desafiam fama de "homem de ferro"

DA REPORTAGEM LOCAL

Costelas quebradas, tendinite no joelho e dores nas costas. Aos 38 anos, uma lista de problemas físicos vai desafiar, no seu novo retorno às quadras, a fama de "homem de ferro" que marcou a carreira de Michael Jordan.
Nas 13 temporadas que disputou com o Chicago Bulls, ele só teve uma contusão grave, no campeonato de 1985/1986, quando disputou só 18 das 82 partidas pelo time do Estado de Illinois.
Em toda sua carreira, Jordan atuou em 93% de todos os compromissos de sua equipe.
O ápice da forma física e da falta de lesões para o astro aconteceram principalmente depois dos 30 anos, quando a maioria esmagadora dos atletas começa a sentir o peso da idade. Quando encerrou sua primeira aposentadoria, em 1995, Jordan tinha 32 anos.
A partir desse momento e até 1998, quando novamente parou depois de conquistar seu sexto título na NBA, não ficou fora de nenhum dos 263 jogos que o Chicago Bulls disputou em temporadas regulares nesse período.
Agora, para jogar em um nível parecido com o do resto da carreira, Jordan fez um minucioso plano, atrapalhado apenas pelas contusões, principalmente as duas costelas quebradas em junho, o que o deixou fora das quadras e dos treinos por um mês.
O projeto da maior estrela da história do basquete de voltar às quadras pela segunda vez começou em meados do ano passado.
Inicialmente, Jordan começou a treinar para perder peso. Depois que parou de jogar, com a vida de cartola, muito golfe e charutos, ele engordou quase 14 kg.
Depois de alguns meses, transformou o que era apenas um "spa" em planos concretos de voltar a jogar profissionalmente.
Como primeiro passo, contratou o técnico Doug Collins, com quem trabalhou no início da carreira em Chicago, para treinar o Washington Wizards.
Na sequência, usou seu prestígio para treinar com alguns dos atuais astros da NBA, a fim de testar sua forma física e de saber se era capaz de jogar em alto nível.
No verão norte-americano, Jordan bateu bola com gente do gabarito de Penny Hardaway, do Phoenix Suns, Antoine Walker, do Boston Celtics, e Michael Finley, do Dallas Mavericks.
Foi em uma dessas práticas que Ron Artest, do Chicago Bulls, quebrou suas costelas.
O que impulsionou também a decisão positiva sobre voltar às quadras foi o retorno ao esporte de outro mito dos EUA.
Quando Mario Lemieux voltou ao hóquei sobre o gelo aos 35 anos, depois de mais de três anos de aposentadoria, Jordan ficou ainda mais empolgado com a ideia de jogar novamente na NBA.
Na reta final da sua preparação para novamente brilhar, o ex-astro do Chicago Bulls contará com uma vantagem em relação ao seu retorno anterior, seis anos atrás.
Em 1995, ele recomeçou sua carreira no final da temporada, sem uma preparação adequada. Sem um bom condicionamento e a tradicional camisa 23, teve performance modesta e viu seu Chicago ser eliminado pelo Orlando.
Agora, Jordan vai fazer toda a pré-temporada com o Washington. No próximo dia 2, ele vai estar com o resto do time na Carolina do Norte, Estado escolhido para abrigar os treinos da equipe.
Caso seja seu desejo e do treinador, já poderá estar em quadra no primeiro jogo preparatório do time, que está marcado para o dia 11, contra o Detroit Pistons.
A estréia oficial do Washington na temporada 2001/2002 acontece no próximo dia 30 de outubro, em Nova York, contra os Knicks, no Madison Square Garden.

NBA de Jordan praticamente não existe mais

DA REPORTAGEM LOCAL

A NBA que consagrou Michael Jordan praticamente não existe mais nos dias de hoje.
Os grandes adversários do Chicago Bulls, por exemplo, não estão mais entre os grandes protagonistas da liga.
Os maiores rivais individuais do astro se aposentaram ou estão em decadência. Dos quatro times que decidiram títulos contra Jordan, nenhum passou da primeira fase dos mata-matas na última temporada.
Um deles, o Seattle, nem vaga na fase decisiva conseguiu.
Mas não é só a cor da camisa dos grandes rivais que o novo jogador do Washington Wizards vai estranhar.
Seus grandes duelos não serão mais contra Patrick Ewing, em final de carreira melancólico, Karl Malone, ainda em forma mas sem brilho na hora decisiva, ou o já aposentado amigo Charles Barkley.
Agora, Jordan terá pela frente adversários de estatura mais baixa e que disputaram nos últimos três anos o título de sucessor do atleta que impulsionou a NBA pelo mundo.
Com exceção de Shaquille O'Neal e Tim Duncan, os três grandes nomes da liga norte-americana hoje -Allen Iverson, Kobe Bryant e Vince Carter- irão marcar e ser marcados diretamente por Jordan.

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