BRASIL - 22/08/2001

Máquina de fazer dinheiro
Ao contrário dos clubes brasileiros que estão completamente falidos, o Real Madrid dá show de bola dentro e fora de campo

Priscila Guilayn – Madri


Comandado por Zidane, o Real Madrid coloca em campo o seu esquadrão de estrelas: Figo, Raúl, Hierro, Roberto Carlos e Sávio, e cobra US$ 2 milhões por um amistoso

"O melhor time e o melhor jogador do mundo finalmente se uniram.” Assim o prestigioso jornal britânico The Times noticiava a contratação do francês Zinedine Zidane, 29 anos, pelo Real Madrid. O passe milionário de US$ 65 milhões, jamais pago a nenhum outro jogador na história do futebol, reforçou a imagem de que o clube espanhol é sobretudo uma forte marca internacional.

Não é à toa que a página oficial do clube na internet começa a se incrementar para oferecer aos internautas a possibilidade de navegar em um idioma a mais, além do espanhol e do inglês: o japonês. Para o Real Madrid, o mercado nipônico representa o potencial de uns 80 milhões de compradores, telespectadores e assinantes. Desta e de outras estratégias tem se caracterizado a gestão do atual presidente Florentino Pérez, que, em apenas um ano, conta com outras grandes investidas, como a compra do passe do português Luis Figo, a venda da Ciudad Deportiva (Cidade Esportiva) e a reconquista da Liga espanhola. “O Real Madrid é uma das marcas mais importantes do mundo e com a contratação de grandes jogadores conjuga-se o prestígio com a marca”, diz Pérez.

Atualmente não se trata de os jogadores serem melhores ou piores no mercado em razão de quantos gols fazem, mas, sim, do dinheiro que ajudam seus clubes a embolsar. E nos dois quesitos o Real Madrid parece estar bem servido: Figo, o troféu Bola de Ouro; Zidane, o melhor jogador do mundo segundo a Fifa; Raúl, o maior artilheiro tanto da Champions League como da Liga espanhola; Fernando Hierro, o capitão do time e dono da zaga; e o brasileiro Roberto Carlos, com sua admirável capacidade física. Um quinteto invejável no clube que ganhou o maior número de Copas da Europa e Ligas espanholas. E que ainda conta com lendários craques, como Alfredo Di Stéfano, Jorge Valdano e Emilio Butragueño, entre seus cartolas. E é justo nesta boa fase do clube que o atacante brasileiro Sávio afirma que chegou sua hora de brilhar. “Quando especularam minha saída do clube, sofri muito. Agora estou centrado, tranquilo, esperando a oportunidade para mostrar meu futebol”, afirma Sávio, que saiu do Flamengo como grande promessa de craque, teve altos e baixos e hoje se firma como titular.

Apesar do sucesso financeiro, a diferença de uma empresa para um time de futebol acaba sendo o que há além das cifras contabilizadas. Existe a paixão, o sonho dos torcedores, que presidentes, diretores financeiros e chefes de marketing se arruinariam caso esquecessem de atender. Mas, para tornar essa magia rentável, os espaços vazios nas laterais dos campos de futebol vão sendo tomados por marcas e slogans, e as negociações para possibilitar, entre outros investimentos, salários milionários como o de Zidane, que receberá cerca de US$ 7 milhões por temporada, vêm de todos as frentes.

Essas receitas saem de publicidade tanto estática como televisiva, de direitos de imagem dos jogadores e de investimentos de milhões de dólares por parte de multinacionais, receita que se completa com todo tipo de merchandising, não desprezando souvenirs como isqueiros, bonés, camisetas, cachecóis estampados com sua marca. Agora, mais do que nunca, as empresas patrocinadoras terão de abrir, e bastante, a carteira. Se para estampar publicidade na camisa do Real Madrid eram pagos cerca de US$ 3 milhões, hoje se especula que ninguém anunciará ao lado do logotipo do clube por menos de US$ 10 milhões. A marca Real Madrid vale, segundo estudo da empresa FutureBrand em 50 clubes de futebol e escuderias de F-1, US$ 140 milhões, só superada pela Manchester United, avaliada em US$ 235 milhões. O Barcelona aparece em sétimo lugar, estimado em US$ 75 milhões.

Mil nomes – Mesmo assim não faltaram propostas. Desde a contratação de Zidane, o Real Madrid recebeu telefonemas da China, do Kuwait e da Arábia Saudita interessados em obter licença para exploração de produtos. Até um banco argelino teria se oferecido como patrocinador do francês, o homem de US$ 152 milhões (caso algum outro time queira tirá-lo do Real Madrid) e mil nomes, conhecido como Zinedine Zidane, ZZ, Zizou, Yazid. Porém, quem ganhou a parada foi a Adidas, que passou a ter sua marca impressa no uniforme do craque.

Mas o dinheiro também vem de outras fontes. Na Espanha, todos os clubes de futebol, de primeira e segunda divisões, são sociedades anônimas (com exceção do Real Madrid, Athlétic de Bilbao e Barcelona) e fazem parte da Liga de Futebol Profissional (LFP), que divide entre todos eles (são 44) sua receita de milhões de pesetas. O dinheiro arrecadado pela LFP, que em 1985 era de US$ 2 milhões e este ano provavelmente chegará aos US$ 31 milhões, vem da loteria esportiva espanhola, de publicidade, de imagem e da televisão, que cobre 80% dos gastos dos clubes. Em plena guerra de audiência, são as emissoras que transmitem as partidas que conquistam os espectadores e, consequentemente, recebem uma bolada dos anunciantes.