Domingo, 19 de agosto de 2001 - O Estado de São Paulo

HMTF revê planos e tira o pé do acelerador em seus investimentos
Parceira do Corinthians descobre como é difícil atuar no instável mercado brasileiro

ROBERTO BASCCHERA

Depois de um início de títulos e conquistas, como o Brasileiro de 99 e o Mundial de 2000 com o Corinthians, o fundo norte-americano Hicks, Muse, Tate & Furst (HMTF) está conhecendo na prática o que é atuar no dia-a-dia do mercado brasileiro. O caso Marcelinho, um investimento de US$ 6 milhões que está escoando pelo ralo, é apenas um exemplo das turbulências que a HMTF enfrenta.

A matriz da empresa, com sede em Dallas, no Texas, determinou pé no freio dos investimentos. A HMTF planejava levantar US$ 1 bilhão na América do Sul para um novo fundo de investimentos. Com a crise do Mercosul, a meta foi reduzida para US$ 200 milhões, pouco mais de 20% dos US$ 964 milhões captados em 1998 para aplicação em negócios no Brasil, Argentina, Venezuela, Chile, Uruguai e México.

No Brasil, as dores de cabeça não são poucas e brotam de várias fontes. O estádio do Corinthians ainda não saiu do papel (leia nesta página). A falta de hábito dos brasileiros de comprar produtos licenciados pelos clubes incentiva a pirataria. Numa reunião entre cerca de 30 funcionários da Pan American Sports Teams (PST) - empresa criada no Brasil para administrar os negócios da HMTF - no final da semana passada, na cidade de Ouro Preto, interior de Minas, o assunto foi discutido. "Temos 86 produtos com a marca Cruzeiro, mas o caminho é duro. A pirataria concorre com sonegação de impostos e mão-de-obra infantil", afirma Ademar Magon, diretor financeiro da Cruzeiro Licenciamentos.

A mudança da legislação, que determinou o fim do passe dos jogadores, secou uma boa fonte de lucros. Um dos últimos grandes negócios da Hicks foi a venda do passe de Vampeta à Internazionale de Milão por US$ 16 milhões. A Traffic, agência de marketing esportivo da qual a HMTF comprou 49% das ações por R$ 81,25 milhões, perde faturamento. Somente nos últimos meses evaporaram do portfolio da Traffic a parceria com a Fifa e os direitos de transmissão do Mundial Interclubes e da Copa Mercosul.

A Traffic também está fora da Copa do Mundo, do Campeonato Brasileiro e dos torneios estaduais e regionais. "Nosso relacionamento com a Hicks é o normal de uma sociedade, está tudo bem", afirma Ruy Brisolla, vice-presidente da Traffic, para depois admitir: "O que acontece é que eles (a Hicks) tiraram o pé do acelerador, não estão fazendo loucuras."


Calote - Nesse quadro de fim de festa há também rasteiras dos dirigentes de futebol. O Flamengo deve ao Corinthians três parcelas de US$ 750 mil cada pela compra do passe do atacante Edílson, negociado no ano passado por US$ 7,5 milhões.

O péssimo início de campeonato do milionário time do Cruzeiro é outro motivo de dor de cabeça para a Hicks. No final do ano passado, a empresa diminuiu de R$ 35 milhões para R$ 32 milhões a verba anual destinada ao clube de Belo Belo Horizonte.

O Cruzeiro contratou Edmundo, Alex e Rincón com recursos das vendas de jogadores, como Fábio Júnior à Roma (US$ 15 milhões), Evanílson ao Borussia Dortmund (US$ 7 milhões), Giovanni ao Barcelona (US$ 18 milhões) e Maxwell ao Ajax (US$ 3 milhões). "O clube tem R$ 40 milhões em caixa", afirma Valdir Barbosa, assessor do presidente Zezé Perrella. Esse dinheiro - os mineiros deixam bem claro - é do Cruzeiro.
Fundo investiu bilhões no Mercosul

Encabeçada pelo texano Tom Hicks, de 55 anos, a Hicks, Muse, Tate & Furst resolveu apostar no crescimento econômico do Mercosul em 1996. Investiu mais de US$ 3 bilhões em telefonia, TVs por assinatura e Internet, entre outros negócios. A porta de entrada no bloco econômico foi a Argentina.

Depois, veio o Brasil, país no qual o fundo optou por investir prioritariamente no marketing esportivo. Estudo da Fundação Getúlio Vargas aponta que a indústria do esporte movimenta mais de R$ 30 bilhões por ano no País, ou 3,3% do Produto Interno Bruto nacional, podendo alcançar 5% em 2003.

Em 1999, os norte-americanos iniciaram uma parceria de 10 anos com o Corinthians, por meio da Corinthians Licenciamentos. Foram lançados 250 produtos com a marca. O fundo de investimentos virou sócio majoritário nos passes de craques como Edílson, Vampeta e Marcelinho Carioca, na proporção de 85% para 15%. Parceria idêntica foi firmada com o Cruzeiro.

A expansão dos negócios relacionados ao esporte prosseguiu. Vieram em seguida a TV a cabo Pan American Sports Network (PSN), o site PSN.com e a compra de 49% das ações da Traffic. No futebol, também há parcerias com o Tigres (México), Chivas-Rayada (México), Colo-Colo (Chile), Universitário (Peru) e Internazionale (Itália).

As dificuldades econômicas argentinas e o dólar supervalorizado esfriaram o entusiasmo da Hicks. Muitas das empresas que o fundo adquiriu passaram a sentir os efeitos da retração do mercado e os americanos resolveram adotar uma política mais cautelosa em relação ao continente. (R.B.)