Domingo, 19 de agosto de 2001 - O Estado de São Paulo

Sinal amarelo para os esportes olímpicos


Atletismo, judô e natação decepcionaram nos últimos mundiais, com desempenho bem inferior ao de outros anos; o que deveria servir de alerta, é justificado por dirigentes e técnicos pela falta de estrutura e de recursos

CAROL KNOPLOCH e HELENI FELIPPE

A falta de medalhas é o ponto comum no desempenho de três esportes olímpicos brasileiros nos recém-realizados Mundiais - atletismo, judô e natação. Longe do pódio, o País deu vexame. As modalidades, sem exceção, tiveram atuações inferiores em comparação às últimas edições, o que serve de alerta para o futuro. Sem poder esperar de Gustavo Borges o desempenho incrível que exibia desde 1991, a natação tem a pior situação - não revelou talentos e, a curto prazo, não tem candidatos a ídolo. O atletismo pode insistir em meia dúzia de provas e um seleto grupo de atletas até os Jogos de Atenas, em 2004. O judô depende do sucesso de uma reestruturação política e administrativa.

Em comparação com o atletismo e a natação, o judô é o esporte que mais medalhas tem em Mundiais Sênior - dez, no total. Desde 91 não ficava fora do pódio, mas em Munique, em julho, os melhores resultados foram dois quintos lugares, dos pesos pesados Daniel Hernandez e Priscila Marques. Em 99, na Inglaterra, o leve Sebastian Pereira conquistou o bronze e, em 97, na França, o Brasil teve o melhor desempenho de todos os tempos: prata para Aurélio Miguel e bronze para Edinanci Silva e Fúlvio Miyata.

O atletismo - que enfrentou desde a queda do bastão no revezamento 4 x 100 metros ao doping de Fabiane dos Santos, nos 800 m -, viu frustrada a expectativa de melhor desempenho no Mundial de Edmonton, no Canadá, há uma semana. Em 99, em Sevilha, a modalidade havia ganho duas medalhas de prata, com Claudinei Quirino, nos 200 m, e Sanderlei Parrela, nos 400 m. O Brasil tem mais cinco medalhas, a prata de Zequinha Barbosa, nos 800 m (91) e quatro de bronze, de Joaquim Cruz (83) e Zequinha (87), nos 800 m, de Luiz Antônio dos Santos, na maratona (95), e de Claudinei Quirino, nos 200 m (97).

Gustavo Borges dificilmente poderá repetir em Atenas o desempenho que o consagrou com três medalhas olímpicas (92 e 96) e 15 medalhas ganhas em pan-americanos, sempre nos 100 e 200 m, livre, e nos revezamentos 4 x 100 m e 4 x 200 m, livre, e 4 x 100 m, medley.

A natação tem quatro medalhas em Mundiais, desde 1973, mas o melhor resultado em Fukuoka, em julho, foi o oitavo lugar da pequena baiana Nayara Ribeiro, de 17 anos e 1,55 m, nos 1.500 m, com recorde sul-americano (16min32s18). Em Perth, na Austrália, em 98, os brasileiros foram a cinco finais (50 m, 100 m, 200 m, 400 m, livre, e 4 x 100 m, livre). Gustavo ficou em 12.º nos 100 m, livre, em Fukuoka e em 5.º em Perth.

Não há dúvida que o desempenho do País piorou, mas os técnicos têm desculpas para justificar a queda, apontando para a carência de infra-estrutura e de recursos. O Brasil não tem o perfil de um campeão nos esportes olímpicos.

"Sem dúvida, o problema do judô é a falta de patrocínio para a Confederação, mas não adianta ter dinheiro e não saber investir", afirma o técnico Floriano Almeida. "O atletismo ainda tem cerca de dez atletas de elite, mas falta descobrir talentos. Mas como conseguir isso se o Brasil não tem pistas nem recursos para comprar equipamentos importados, como a vara, que é caríssima?", pergunta o técnico Jayme Netto.

Para o Brasil obter resultados, precisaria de uma política de esportes, que não tem. "Se Ian Thorpe (recordista mundial dos 200, 400 e 800 m, livre) tivesse nascido aqui, poderia nem ter sido um atleta", afirmou o técnico Alberto Klar. "Provavelmente, não o teríamos identificado como um nadador.

Custa caro ter um programa nacional de caça-talentos e aprendizado."