Sexta-feira, 27 de julho de 2001 - Jornal da Tarde


Real Madrid: a virada em seu centenário

Há um ano, o clube devia US$ 250 milhões. Um empresário, Florentino Pérez, assumiu sua presidência. Para a temporada 2001/2002, o orçamento já será de US$ 143 milhões, com idéias arrojadas e apoio enloquecido da torcida


Em 17 de julho de 2000, o engenheiro Florentino Pérez assumiu a presidência do Real Madrid herdando a assustadora dívida de US$ 250 milhões. Em sua primeira semana no poder, tirou o atacante português Figo do rival Barcelona por US$ 56 milhões. Um ano depois, foi buscar o francês Zidane na Juventus por US$ 65 milhões. O orçamento para o futebol na temporada 2001/2002, que será a de celebração do centenário de fundação do clube, é de US$ 143 milhões. Como isso foi possível?

Dono de uma das maiores construtoras da Espanha - sua empresa é especialista em abrir estradas e construir portos - e líder de um consórcio que explora a telefonia móvel, Florentino Pérez, 54 anos, chegou à presidência do Real Madrid com fama de ótimo administrador. No programa de sua campanha, prometia acabar com a dívida e montar um supertime, dentre outros pontos.

A contratação de Figo foi possível graças a um empréstimo bancário que conseguiu com seu prestígio e o peso do Real Madrid. Mas, para fazer de Zidane o jogador mais caro da história, Pérez usou recursos de um negócio que salvou o clube: a venda da Ciudad Deportiva, o complexo em que está instalado o Centro de Treinamento. Na transação, o Real receberá US$ 350 milhões.

O terreno em que fica o CT, no Paseo de la Castellana (na zona mais valorizada da cidade), tem 14 hectares de área. O Real era dono de 11, porque três haviam sido vendidos na gestão anterior - de Lorenzo Sanz - para a prefeitura e o governo da Província por US$ 17,5 milhões. Agora, as três partes fizeram um acordo para explorar comercialmente quatro torres de escritórios que serão erguidas nas esquinas do terreno. O Real terá direito sobre 2,5 torres, a prefeitura explorará uma e o governo da Província, meia.

É daí que está jorrando a fortuna que sustenta os sonhos de Florentino Pérez.

Em 2003 - um ano antes do fim do mandato do presidente -, o clube espera ter concluído a "Cidade do Madridismo", um moderníssimo CT que ocupará uma área de 121 hectares na mesma região do CT atual. A obra custará US$ 75 milhões.

Quando o Real se mudar da "Ciudad Deportiva", será iniciada no terreno a construção de um complexo esportivo para impulsionar a candidatura de Madri a sede da Olimpíada/2012.

Montar um time de estrelas não é barato. Manter o elenco com pagamentos em dia também não. Só para bancar seus quatro principais jogadores nesta temporada o Real desembolsará US$ 17 milhões, mais de R$ 42,5 milhões.

Zidane, Figo e Raúl receberão US$ 4,5 milhões cada um e o brasileiro Roberto Carlos ganhará US$ 3,5 milhões.

Para ajudar a cobrir os gastos, Florentino Perez já estipulou a cota mínima que o clube cobrará para jogar um amistoso: US$ 1,5 milhão, com todas as despesas pagas. Não é à toa que o Real se exibirá na Arábia Saudita, no Egito e na Líbia durante a pré-temporada. E está aberto a outros convites.

Quando contratou Zidane, o clube comprou 50% dos direitos de imagem do jogador. Ficará com metade do valor de todo contrato de publicidade que o francês assinar daqui para a frente e da venda de cada produto que leve seu nome. À medida que os contratos antigos de Zidane forem vencendo, o Real passará a levar 50% em caso de renovação.


Torcida impressiona

Formar um time de primeira linha também atrai dinheiro dos torcedores. Segundo o diretor de comunicações do clube, Joaquin Marotto, a compra de carnês de ingressos para os jogos da Liga Espanhola - que começa em 25 de agosto - está sendo impressionante.

"Com certeza teremos 100% de ocupação (80 mil pessoas) em todos os jogos que fizermos no Santiago Bernabéu", disse ao JT. No ano passado, a média de público na Liga, em seu estádio, foi de 65 mil pessoas.

A venda de camisas oficiais também é um bom indicador do entusiasmo dos torcedores com a política de contratações de Florentino Pérez.

Antes da chegada de Figo, o campeão de vendas era Raúl. Por ano, eram vendidas aproximadamente 70 mil camisas com o número 7. Na temporada passada, a média de Raúl foi mantida mas o clube vendeu mais 150 mil camisas do jogador português número 10. Pelo ritmo de vendas da camisa com o nome e o número 5 de Zidane - no dia de sua apresentação a lojinha do estádio vendeu 700 em oito horas -, a estimativa é de que ao longo da temporada sejam negociadas 200 mil, a US$ 65 cada uma.

Segundo cálculos do presidente, além dos US$ 350 milhões da venda da Ciudad Deportiva entrarão mais US$ 130 milhões nos cofres do clube nesta temporada, incluindo-se direitos de transmissão por tevê, bilheteria, cotas de amistosos e merchandising.


Luís Augusto Monaco, especial para o JT

Sexta-feira, 27 de julho de 2001


Planos de expansão do 'time do século'




Eleito pela Fifa o melhor time do século passado por sua incomparável coleção de troféus, o Real Madrid tem planos para ganhar muito dinheiro também fora da Espanha. "Temos um estudo que diz que contamos com 80 milhões de admiradores em todo o mundo, quase o dobro do segundo colocado, que é o Manchester United. É preciso saber tirar proveito desse potencial", diz Joaquin Marotto, o diretor de comunicações do clube.

Uma das estratégias será espalhar por outros continentes uma franquia de lojas com produtos licenciados pelo Real. Outra será criar escolinhas de futebol para ajudar a descobrir jovens talentosos que possam ser aproveitados pelo clube. E o Brasil com certeza receberá uma dessas escolinhas.

"Pela tradição de revelar grandes jogadores, Brasil e Argentina serão os primeiros países onde o clube instalará as escolas. Os responsáveis pelo trabalho com os garotos serão ex-jogadores do Real Madrid que tenham nascido no país. Por exemplo: se fosse aberta uma escolinha hoje no Brasil um bom nome para assumi-la seria Ricardo Rocha", afirma Marotto. "Além do trabalho no campo, os meninos receberiam toda assistência e aprenderiam a história e os valores do Real Madrid. Quem se destacar poderá vir para a Espanha. É muito diferente buscar um Roberto Carlos na Inter de Milão do que criar um no próprio clube."

O processo de expansão internacional do Real Madrid também será apoiado pelo site oficial do clube (www.realmadrid.com). Hoje, o conteúdo está disponível em espanhol e inglês. Brevemente, também será possível ler os textos em japonês. O rico mercado do Japão, um dos organizadores da próxima Copa do Mundo, está nos planos do clube espanhol.

A direção do Real está negociando com a Federação Japonesa de Futebol uma data para levar seu "Dream Team" para enfrentar a seleção local como promoção da Copa/2002.

Outro plano de Florentino Pérez é construir um museu contando a história de glórias do clube, como já tem o Barcelona, o Ajax e o Manchester United, dentre outros grandes da Europa. Mas, para o presidente do Real Madrid, nenhum museu poderá ser comparado ao seu. Porque o clube do século é um só.


(L.A.M.) São 1.500 suíços em cada treino na pequena Nyon




O "Dream Team" do Real Madrid disputará hoje sua primeira partida na temporada. Será um amistoso contra o Lausanne, na cidade suíça que abriga a sede do Comitê Olímpico Internacional. O jogo será em homenagem ao espanhol Juan Antonio Samaranch, que há dez dias deixou a presidência do COI após 21 anos no poder.

Como a pré-temporada do time na cidade suíça de Nyon começou há menos de uma semana, o técnico Vicente del Bosque pretende colocar todos os jogadores em campo para que ninguém se desgaste muito. Mas vai dar ao público o que o público quer, escalando Figo, Raúl, Zidane e Roberto Carlos para começar a partida.

"Vai ser um prazer jogar com Zidane. Ele torna fácil o que parece difícil e tem uma visão de jogo incomparável", afirmou Raúl, "cria" do clube de Madri.

O interesse dos suíços em ver Zidane é tão grande que deu à direção do clube espanhol a idéia de passar a cobrar ingressos para os treinos. Desde ontem, quem quiser acompanhar de perto o trabalho do time tem de pagar 5 francos suíços (aproximadamente US$ 3). Em média, cada treino do Real Madrid em Nyon tem sido visto por 1.500 pessoas.

A partida começará às 14h de Brasília.

Rivais atacam o 'clube do poder' e acordos políticos




A salvação do Real Madrid através da venda da Ciudad Deportiva está provocando indignação por toda a Espanha. No campo esportivo, os ataques mais fortes ao acordo partem de Barcelona e Atlético de Madrid, os dois maiores rivais do clube. No campo político, a Associação de Defesa do Estado de Direito (ADED) apresentou uma ação pedindo a suspensão da venda.

Barcelona e Atlético protestam contra a ajuda histórica do poder ao rival.

"O Real Madrid sempre foi o clube do poder, desde os tempos em que o país era comandado por Francisco Franco (o ditador que mandou na Espanha por mais de 40 anos", diz Jesus Gil y Gil, presidente do Atlético.

Joan Gaspart, presidente do Barça, é mais claro. "O Real Madrid não estaria gastando como está se não tivesse por trás a segurança da ajuda oficial. Os clubes devem viver de suas próprias receitas, como bilheteria, direitos de televisão, venda de produtos... Mas se uma fortuna entra nos cofres por outras vias, se estabelece uma desigualdade na competição com os outros clubes. E, se esse dinheiro é usado para comprar jogadores, é ainda mais grave."

A imprensa catalã também tem batido com violência no acordo para a venda da Ciudad Deportiva. Os jornais "Sport" e "El Mundo Deportivo" já fizeram vários editoriais sobre o assunto. Um dos mais agressivos foi publicado pelo "Sport" quando o Real anunciou a contratação de Zidane. "Se não fossem os favores políticos, um clube que estava arruinado com uma dívida de US$ 250 milhões não poderia nunca ter comprado Figo e Zidane. Éssa é uma verdade irrefutável, um escândalo intolerável que manipula a Liga e faz com que o Real Madrid jogue com vantagem", diz um trecho do texto.

Porta-voz da ADED, Margarita Botija argumenta que o Real Madrid não poderia ter vendido a Ciudad Deportiva porque não chegou a quitar o pagamento dos terrenos que comprou da prefeitura em 1956. "A venda foi feita por US$ 60 milhões, mas o clube só pagou US$ 30 milhões. Portanto, os terrenos ainda pertencem à prefeitura e devem ser destinados ao uso público. O que o Real Madrid está fazendo é um uso abusivo de um bem público."


(L.A.M.)