Domingo, 29 de julho de 2001 - O ESTADO DE SÃO PAULO - CARLOS FRANCO

Brasil fora da Copa? Milhões de prejuízo


Rede Globo, grandes agências e patrocinadores como a AmBev, fabricante do guaraná Antarctica, fazem figa e batem na madeira para seleção conseguir classificação

E se a seleção brasileira não conseguir uma vaga para a Copa? O publicitário Daniel Barbará, diretor da DPZ e presidente do Grupo de Mídia de São Paulo, não quer sequer pensar nessa hipótese, mas sabe na ponta da língua o que a publicidade, sem contar o patrocínio das transmissões de jogos pelas emissoras de televisão, perderia com isso: R$ 600 milhões. "Esse é o montante que deixaria de circular a mais nos veículos de comunicação e em promoções (sorteios, material de ponto de venda, cartazes, faixas, distribuição de brindes e outros) caso o Brasil fique de fora da competição; não é nada desprezível", afirma Barbará.

Já outros R$ 500 milhões seriam embolsados pelas emissoras de televisão e rádio, que vendem cotas antecipadas para futebol, sendo que a Copa eleva os valores dessas cotas em torno de 25% a 35%. Barbará estima que uma das cinco cotas para 2002 da Rede Globo, que tem os direitos exclusivos de transmissão dos jogos de futebol, mas tem acordo para repassá-los para a Bandeirantes, por enquanto, giram em torno de R$ 75 milhões. Ou seja, mesmo com o Brasil de fora a receita de futebol entra, mas corre o risco de ficar menor, frustrando muitos planos. As emissoras de televisão a cabo seriam, nesse caso, as mais prejudicadas, pois têm aumentado a fatia de receita com a Copa de 1998 e a Olimpíada do ano passado (veja quadro).


Arrepios - Nos corredores da Rede Globo, o assunto desclassificação do Brasil não pode sequer ser ventilado. Causa arrepios, embora esteja assegurada a transmissão de cerca de 120 jogos, que chegam a 180 quando é período de Copa. Sem o Brasil, porém, a Copa ficaria parecida com a transmissão das corridas de Fórmula 1 de 1994, que perdeu a graça e os pontos de audiência no Ibope com a morte do piloto brasileiro Ayrton Senna no dia 1.º de maio, no início da temporada. Mais: sem a seleção canarinha dificilmente a empresa consegue também agregar novos anunciantes, corre o risco de ficar restrita aos patrocinadores oficiais. Oficialmente, a emissora informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que aguarda os acontecimentos para tomar uma posição.

Dalton Pastore, sócio da Carillo, Pastore EURO RSCG, fica apavorado só de pensar na desclassificação do time nacional. Não é para menos. A agência tem a conta de dois dos cinco patrocinadores oficiais da seleção: Embratel e guaraná Antarctica, que arrebatou da DM9DDB no mês passado. "Ainda temos chances de classificação e acho que vamos conseguir chegar lá", diz e garante: "A maior perda se o Brasil não se classificar será da população, porque isso mexerá com o ânimo do brasileiro." Pastore lembra que a população está enfrentando muitas decepções na política e no dia a dia com medo do apagão, e "só faltava agora ficar sem o futebol, uma tradição no País". Uma Copa, diz o publicitário, tem o poder de agregar o brasileiro, traz alegria e vendas maiores para o varejo. Poderia também determinar novas ações de outro cliente da Carillo, a Peugeot. "Uma Copa agrega novas campanhas, anúncios de oportunidade, por isso é muito difícil aceitar a idéia de que não vamos ao Japão", encerra o publicitário, fazendo figa e batendo na madeira, como qualquer torcedor.


Guaraná - Na F/Nazca, a agência do ano no Festival de Cannes 2001, dona das contas das cervejas Brahma e Skol, ninguém quer falar ou pensar nessa possibilidade. A Copa tem o poder de aumentar as vendas de cervejas num período tradicionalmente fraco, no meio do ano, quando o verão não aquece mais as vendas de bebidas geladas.

O assunto desclassificação também é evitado dentro da AmBev, a empresa resultante da fusão de Brahma e Antarctica, que faz sua estréia como patrocinadora oficial da seleção. O guaraná Antarctica, que a empresa tem planos de internacionalizar é o patrocinador oficial, após desmbancar a Coca-Cola, que corre na Justiça para receber indenização da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pelo rompimento do contrato.

Pelo acordo, a AmBev vai desembolsar US$ 10 milhões ao ano durante 18 anos.

Mas a CBF corre um risco: o contrato é automaticamente rompido se o País não se apresentar na Copa por duas vezes seguidas, o que seria um tormento para torcida.

No caso da AmBev, que está investindo R$ 330 milhões no marketing dos seus produtos este ano, o próximo ano seria marcado por promoções em torno da Copa, uma forma de aumentar o consumo do produto, levar vendedores e distribuidoras para fora do País, adoçando a boca com o guaraná e, ainda, associar nas latas e nos pontos de venda o refrigerante à seleção. Planos que levam anos para serem desenhados e que a empresa não quer ver por água abaixo.

Da mesma forma, as agências de turismo sequer cogitam essa possibilidade, pois estão costurando contratos de vôos charters para levar ao Japão e à Coréia do Sul a torcida brasileira, conhecida por onde passa como a mais alegre do mundo, ao lado dos holandeses.


Telefonia - A Nike, outra patrocinadora da seleção brasileira, também teme o pior, mas não fala oficialmente sobre o assunto. A empresa americana, do Oregon, que fatura anualmente cerca de US$ 9 bilhões, tem na América do Sul um mercado em torno de US$ 550 milhões, onde o Brasil emerge como um dos principais. Na época de Copa, a venda dos seus artigos esportivos relacionados à seleção aumenta entre 30% e 40%. Só que a empresa enfrenta a concorrência desleal das camisas pirateadas, e investe por ano cerca de US$ 300 mil no País para combater esse uso indevido.

A seleção durante a Copa dá um empurrão na economia informal, com a venda de cornetas, apitos, bandeirolas, e camisas pirateadas do time, mas também estimula a economia formal. É o caso das vendas de televisores, que cresce subitamente no período, especialmente as de telas de 29 polegadas. Em 1998, os principais fabricantes de aparelhos de televisão do Brasil, como Semp Toshiba, Philco Hitachi e Mitsubishi, entraram em guerra, comprando espaços na mídia para vender seus aparelhos. Uma guerra que tem tudo para se repetir em 2002, se a seleção chegar lá. Barbará lembra que, na Copa de 1998, a publicidade chegou a movimentar R$ 650 milhões, sem contar com a concorrência das operadoras de telefonia fixa e celular.