OLIMPÍADAS - Todo mundo sabia

COI elege a sede dos Jogos Olímpicos sem levar
em consideração os problemas políticos e sociais do país asiático.

Por Luiz Felipe Fagundes


População chinesa comemora a eleição da sede das Olimpíadas de 2008.

Sem surpresas. Pequim, a cidade-candidata favorita para ser a sede das Olimpíadas de 2008, foi eleta na 112ª sessão executiva do Comitê Olímpico Internacional (COI), realizada nesta sexta-feira em Moscou, para receber o mais nobre dos eventos do calendário mundial esportivo.

A eleição já criava polêmica antes mesmo do anúncio da vencedora. Uma campanha envolvendo as cidades-candidatas, ativistas dos direitos humanos, a Anistia Internacional e grupos pró-independência do Tibete tentaram mostrar para o mundo que eleger Pequim era dar um voto para as atrocidades cometidas no país nos campos político, social e humano.

Mas todos os esforços foram em vão. Assim como aconteceu na Copa América 2001, na Colômbia, o dinheiro falou mais alto do que a razão. Pequim é dona de 20% da população mundial. Sua economia cresce cerca de 8% por ano. Apesar de ser comunista, o país abriu as portas para receber grandes empresas capitalistas, muitas delas patrocinadoras do COI, como a Coca-Cola, McDonald's, Panasonic, Visa, Xerox, Kodak e Schlumberger.

Tamanha demanda de consumidores é o paraíso para estas empresas, sempre prontas para expandir seu mercado. Em 1993, quando Sydney foi eleita a sede das Olimpíadas de 2000, uma forte campanha destas multinacionais tentou dar a vitória a Pequim. Faltaram apenas dois votos. Mas, desta vez, sem a interferência norte-americana, não teve erro. Nem a imagem de milhares de prisioneiros políticos trancados em cárceres ou em campos de trabalho e a ocupação e repressão armada ao Tibete, mudou o voto dos membros do COI.

Independentemente dos problemas políticos, os chineses parecem dispostos a receber os cerca de 5 mil atletas de todo o mundo de forma calorosa. Esforços para a construção de instalações esportivas modernas já estão sendo realizados. As "Olimpíadas do Povo", como o Comitê Olímpico Chinês vêm chamando o evento, pretendem levar os Jogos para cinco cidades, inclusive para a província rebelde de Taiwan. Tudo isso para poder mostrar que o país está unido, visando apenas um objetivo: mostar ao mundo que a China é um país desenvolvido.

O presidente da entidade, o espanhol Juan Antonio Samaranch, deixa o cargo após 21 anos no comando da entidade. A eleição da cidade chinesa foi sua última realização, e a uma das quais ele mais se dedicou. Em nenhum momento Samaranch escondeu que Pequim era sua candidata, sempre alegando que o espírito olímpico é o único que pode mudar a situação política da China.

Os canadensenses, inconformados com a derrota de Toronto, reclamaram que Pequim foi eleita porque era a preferida do COI. A cidade se considerava a mais preparada das cinco candidatas. Já os parisienses apenas mostraram uma grande decepção. A cidade francesa ficou com um número de votos bem abaixo do que esperava. Osaka, no Japão, e Istambul, na Turquia, apesar dos esforços, já entraram derrotadas na eleição.

Veja como foi a eleição (são necessários 52 votos para vencer):
Primeira rodada de votos:
Pequim - 44
Toronto - 20
Istambul - 17
Paris - 15
Osaka - 6 (eliminado)

Segunda rodada:
Pequim - 56 (vitoriosa)
Toronto - 22
Paris - 18
Istambul - 9