Grandes lucros com as corridas

Gazeta do Povo

16/08/2009

Cinthia Scheffer

Difusão do esporte colocou em evidência um filão pouco explorado no país. Hoje, empresas movimentam R$ 3 bilhões por ano só com provas, sem contar assessorias, produtos e turismo ligados à atividade física

O movimento na pista que contorna o Parque Barigui dá uma ideia de como a corrida de rua ganhou adeptos em Curitiba ao longo dos últimos anos. Mas é no gramado, especialmente nos sábados de sol, que se percebe como o segundo esporte mais praticado no país, atrás apenas do futebol, também criou muitos negócios rentáveis. É nele que se multiplicam os guarda-sóis das assessorias esportivas – parte de um mercado cuja receita estimada só com provas é de R$ 3 bilhões anuais.

A estimativa é da Corpore, entidade paulistana sem fins lucrativos com mais de 245 mil atletas cadastrados. Somam-se ainda a este número outros bilhões de reais referentes às assessorias, à venda de artigos esportivos, suplementos alimentares e até ao turismo (para participar das provas). Pelos cálculos da Corpore, o Brasil tem hoje 4 milhões de corredores e a receita gerada pelo esporte vem crescendo entre 20% e 30% ao longo dos últimos anos.

O número de corredores cadastrados na prefeitura de Curitiba para as provas, hoje cerca de 10 mil pessoas, mostra que o fenômeno também corre a passos largos por aqui. A primeira prova do Parque Tingui, organizada pela Associação Procorrer há 14 anos, teve 192 pessoas inscritas. Na do ano passado, foram 2 mil corredores. “Há seis anos, uma prova não tinha mais que 800 pessoas. Hoje chega, em alguns casos, a 3 mil”, conta o corredor e professor de educação física Leandro Hadlich, dono da assessoria esportiva HP Sports.

Assessorias

A empresa foi criada no início do ano passado com 10 alunos. Hoje são 75. Cada um deles paga R$ 90 por mês e recebe semanalmente, por e-mail, seu cronograma de treinos. A partir daí, escolhe fazer seus próprios horários ou participar dos treinos coletivos, quando a assessoria está no parque.

Além da HP, outras dez assessorias fazem parte da Associação dos Treinadores de Corrida de Curitiba (ATCC), entidade fundada no início deste ano. A proposta, conta o presidente, o professor de educação física Fabio Morales Alonso, é justamente “organizar” o crescimento desse mercado.

“Tchê”, como é conhecido entre os corredores, é fundador da Trainer, maior assessoria da cidade. Ele começou a oferecer treinamento em 2002, para um grupo pequeno de pessoas, inspirado em um modelo de assessoria esportiva que, na época, ganhava espaço no mercado paulistano. A empresa foi criada oficialmente em 2005 e hoje tem 250 alunos, 4 técnicos e 5 estagiários. “Na época, foi um tiro no escuro. A corrida estava crescendo no mundo inteiro, mas eu não sabia se teria mercado aqui. As pessoas colocavam o tênis e saiam correndo. Ninguém, até então, ‘comprava’ a corrida.”

O grande impulso do negócio, con­­ta Tchê, foi a parceria com a Asics, uma das maiores fabricantes de produtos para corredores do mundo. Na época, a marca buscava treinadores e assessorias iniciantes para apoiar, em troca da ex­­posição de sua marca. Os 10 guarda-sóis que ele ganhou na época se multiplicaram, a empresa cresceu e ganhou um escritório – que até o fim do ano deve mudar de endereço, para um espaço maior.

Hoje, a Trainer tem contrato tam­­bém com outras duas grandes empresas e a HP treina 56 funcionários de outra companhia. Não só para elas, o interesse das empresas em oferecer o treinamento para os funcionários, dizem os treinadores, foi fundamental para fazer a pro­cura pelo esporte crescer – e, as­­sim, os mercados relacionados a ele.

Patrocínios

Para o presidente da Corpore, a prática da corrida é hoje ligada a um “estilo de vida” e, por isso, atrai também investimentos de muitas empresas que não estariam ligadas naturalmente ao esporte. “Uma coisa puxa a outra. As empresas percebem que as provas de corrida estão atraindo muito público e querem colocar seu nome. E isso faz com que o mercado cresça”, diz. “Há 15 anos, as pessoas começavam a correr por orientação médica. Depois, fazer esporte passou a ser uma questão preventiva, de qualidade de vida. Agora estamos em um terceiro estágio.”

O desempenho do programa Vamos Correr, do canal ESPN, também releva esse interesse. Ele foi criado em abril deste ano, com cotas de patrocínios de cerca de R$ 1,2 milhão anuais (que incluem também os espaços no seu portal) – vendidas sem grandes esforços. “Existia uma demanda dos telespectadores e dos nossos parceiros comerciais por um programa voltado para corrida”, diz o diretor comercial do canal, Marcelo Pacheco. “O esporte é uma febre em todos os lugares do mundo. O programa nasceu muito baseado nessa tendência é já é um sucesso.”