Sexta-feira, 29 de junho de 2001 - O Estado de São Paulo

Formato do futebol agora é para a TV

O calendário organizado para os próximos quatro anos deve privilegiar os índices de audiência. Os patrocinadores aprovam. As transmissões ainda são boa fonte de renda dos clubes brasileiros

O calendário do futebol brasileiro para os próximos quatro anos, anunciado esta semana, vai privilegiar as audiências de tevê. Com os jogos semifinais e finais das diversas competições favorecendo o confronto entre grandes clubes, os índices da Rede Globo deverão aumentar. E os patrocinadores agradecem. "Quando investimos em um evento, é lógico que pensamos sempre na maior audiência possível", diz uma fonte da Ambev.

A empresa tem duas cotas nas transmissões da Globo, uma de refrigerante e outra de cerveja. Cada cota, segundo informações do mercado publicitário, está orçada em R$ 50 milhões.

As semifinais da Libertadores, entre Palmeiras e Boca Juniors, e as finais da Copa do Brasil, entre Corinthians e Grêmio, alcançaram excelentes marcas de audiência na emissora, com cerca de 1,8 milhão de residências na Grande São Paulo. Na média, segundo uma fonte da Globo, a audiência do Rio-São Paulo de 2001 foi mais alta do que a do Paulista deste ano. "O novo calendário parte do princípio que um torneio como o Rio-São Paulo, envolvendo pelo menos oito grandes clubes brasileiros, tem de ser mais atraente que o Paulista ou o Carioca. E isso é inegável", diz Ruy Brisolla, vice-presidente da Traffic, empresa de marketing esportivo que controla a Rede Bandeirantes e tem os direitos de eventos como as Eliminatórias sul-americanas e Copa América, além da Mercosul.

Brisolla acrescenta que os grandes clubes sempre asseguram boa audiência para as emissoras, variando de acordo com a a situação da equipe. Os índices médios indicam entre 35 e 40 pontos porcentuais (cada ponto equivale a 80 mil espectadores) para os jogos do Corinthians, entre 30 e 35 para os do Palmeiras e entre 25 e 30 para o São Paulo, no universo do Estado de São Paulo. No Rio, o Flamengo tem um índice semelhante ao do Corinthians. E os grandes times do eixo Rio-São Paulo também alcançam boas porcentagens em outros Estados.


Altos índices

Pelas estimativas do mercado, a Globo tem faturamento anual em torno de R$ 2,5 bilhões, o SBT R$ 800 milhões e a Record, R$ 300 milhões. Em tese, segundo Brisolla, a Globo é a única que tem condições de bancar os altos custos dos direitos do futebol brasileiro e internacional. Embora mais distantes, SBT e Bandeirantes têm no esporte seu recorde de audiência. O do SBT, em 1995, na final da Copa do Brasil, entre Corinthians e Grêmio: 52 pontos. E o da Bandeirantes foi em 2000, na final do Mundialito de Clubes, Vasco e Corinthians.

"A Globo paga bem pelo futebol. Se os clubes têm problemas financeiros, a questão é outra. Os salários de vários jogadores no Brasil são incompatíveis com o que se arrecada. E as cidades têm mais clubes do que deviam, analisado pela ótica realista do marketing esportivo", diz Brisolla.

Em 2000, a Globo se sentiu lesada pelas confusões armadas na organização do Brasileiro pelo Clube dos 13 e não pagou os US$ 70 milhões previstos, mas US$ 40 milhões. Os índices de audiência também despencaram nos jogos finais devido à bagunça provocada pelo dirigente do Vasco, Eurico Miranda. Mesmo assim, os clubes reconheceram que ainda assim a tevê foi quem deu mais dinheiro para o futebol.


Castilho de Andrade