Terça-feira, 8 de maio de 2001


Cariocas pedindo socorro

A maioria dos clubes do Rio está sem dinheiro para pagar salários. O caso mais grave é o do Botafogo, que dispensou oito que reclamaram

Pobre futebol carioca. Salários em atraso, dívidas trabalhistas, cofres vazios. Os principais clubes do Rio atravessam a pior crise da história. Sem dinheiro, sem patrocínio, estão à míngua. Não fosse o adiantamento das cotas de televisão, a situação seria ainda mais dramática. Na reta final, o Campeonato Estadual atrai pouco público aos estádios. Não há dados, porque a Federação Carioca (Ferj) não divulga mais o público pagante - o que dificulta a cobrança do INSS. Mas se sabe que a situação é grave.

O maior exemplo chama-se Botafogo. A histórica goleada de 7 a 0 para o Vasco deflagrou a maior crise da história do clube. O presidente Mauro Ney Palmeiro garante que na véspera do clássico pagou um mês de salário atrasado. Os jogadores afirmam o contrário. Um deles, o zagueiro Váldson, chamou a Diretoria de mentirosa e foi afastado com mais sete atletas (os laterais Gustavo e Walmir, o zagueiro Tony, os volantes Marcelinho Paulista e Fábio Augusto e os atacantes Alexandre Gaúcho e Dimba).

"O Botafogo perdeu de um time que tinha salários atrasados há mais tempo", disse Ney Palmeiro referindo-se ao Vasco. "Até agora não recebi nada. Quero tudo a que tenho direito", reclama Alexandre Gaúcho, que está treinando em separado, à espera de um clube para atuar no Campeonato Brasileiro.

Eliminado da Copa do Brasil e do Estadual, o Botafogo, que não consegue patrocinador, dependerá de empréstimos bancários para saldar sua dívida. Os dirigentes juram ter saldado cerca de 70% dos salários. Alguns funcionários não recebiam há oito meses. "Mergulhamos em uma crise que parece não ter fim", admite Ney Palmeiro. Parte do empréstimo de R$ 1,7 milhão saiu de uma operação que envolveu uma financeira e o portal Globo.com. "Estamos já esperando a cota transmissão do Campeonato Brasileiro", afirma Ney Palmeiro.

Salvo da degola - além dos oito jogadores, o gerente de Futebol Antônio Clemente também foi demitido - o técnico Dé se desespera ao saber que ficou com apenas 14 atletas, muitos ex-juniores, para colocar em campo. A situação de Dé, treinador em duas das maiores goleadas sofridas pelo time, ambas por 7 a 0 (para o Fluminense em 1994 e para o Vasco, agora), não é confortável.

No Vasco, o atacante Edmundo cobra na Justiça 15 meses de salários atrasados e indenizações por danos morais. E exige passe livre. Segundo ele, o Vasco lhe deve cerca de R$ 30 milhões. "Não devemos nada", diz o vice-presidente jurídico, Paulo Reis.

No Flamengo, com o naufrágio da empresa suíça ISL, gigante de marketing esportivo, que assinou contrato em 1997 de US$ 80 milhões por 15 anos, mais US$ 2,5 milhões para pagar salários, o clube procura desesperadamente outros parceiros.


Até Zagalo?

Edílson, Gamarra e Petkovic, que juntos têm salários de cerca de R$ 1 milhão, já foram comunicados que caso queiram continuar terão seus salários reduzidos. A Diretoria deverá se desfazer de alguns jogadores revelados em casa. O zagueiro Juan, os atacantes Adriano e Reinaldo teriam clubes europeus interessados. Outra provável saída é a do técnico Zagalo.

Os esportes amadores estão em pior situação. O Vasco anunciou um projeto olímpico, mas depois de Sydney/2000 encerrou praticamente todas as modalidades. O vôlei feminino, vice-campeão da Liga Nacional e o vôlei masculino foram defeitos. O basquete masculino vai bem na Liga Nacional, mas perdeu o norte-americano Charles Byrd e o dominicano José Vargas. Os que ficaram, entre eles o técnico Hélio Rubens, estão há vários meses sem receber. O problema atingiu o cavaleiro Rodrigo Pessoa, a dupla vice-campeã de vôlei de praia Shelda/Adriana Behar.

Situação idêntica vive o Flamengo, que não paga salários dos jogadores do time masculino de basquete há oito meses.

O Americano de Campos, time de coração do presidente da Ferj, Eduardo Viana, o 'Caixa D'Dágua', é um dos poucos com salário em dia. Mas o orçamento é baixo, cerca de R$ 35 mil mensais.

O Fluminense também é outro que afirma estar com salários em dia. Mesmo assim, o clube dependerá da Copa do Brasil para manter a folha de pagamento.

A parceria com a New Sport, assinada em novembro, não deverá ir adiante. A empresa não paga desde janeiro. "Recebemos pouco mais de US$ 3 milhões, insuficientes para honrar nossos compromissos", afirma o presidente David Fischel, que considera ideal a co-gestão como a existiu entre a Parmalat e o Palmeiras.

Para evitar a falência, o prefeito César Maia ofereceu dinheiro para os quatro grandes clubes do Rio. A Prefeitura pretende encaminhar à Câmara Municipal projeto de lei que cria um fundo de amparo. A sugestão encaminhada aos cartolas prevê que a receita sairá de porcentagem de taxas municipais.

Os clubes não teriam contrapartida alguma.


Eduardo Soares, especial para o JT