Campanha da Nike enaltece camisa 10, mas mina a imagem da 2

 

29/04/2005 - 09h10
Campanha da Nike enaltece camisa 10, mas mina a imagem da 2

Por Luís Ferrari, Paulo Cobos e Toni Assis
Da Folhapress
Em São Paulo

A Nike não esconde que sua atual estratégia de marketing é glamourizar a camisa 10. Mas uma peça publicitária desse esforço pode ter o efeito colateral de minar a imagem de outra camisa: a de número 2.

No período em que a seleção brasileira tem seu mais importante camisa 2 de todos os tempos, o capitão Cafu, a fornecedora de material esportivo da CBF estampa cartazes com os dizeres: "Ninguém se mata pra jogar com a 2".

Tal slogan parece fora da realidade para quem teve uma trajetória como a de Cafu. Garoto da periferia de São Paulo, ele foi rejeitado em nada menos do 12 peneiras antes de ser aceito no São Paulo. Com fama de grosso, passava horas treinando fundamentos, como cruzamentos, para justificar a titularidade em um time grande.

O número 2 tradicionalmente é destinado ao lateral-direito, atleta que, ao lado de seu parceiro que atua pela esquerda, é o jogador que mais costuma correr numa partida. "Em geral, os laterais correm 12 km por jogo, 10% mais que os meias [posição do camisa 10]", conta Turíbio Leite de Barros, fisiologista do São Paulo.

"A intenção não é de desvalorizar a 2, mas relevar a magia da 10", explica Katia Gianone, gerente de comunicação da Nike do Brasil.

Para ela, o fato de "ninguém se matar para jogar com a 2" não menospreza o lateral-direito do Milan. "A campanha não tem nada a ver com o Cafu", explica ela.

Gianone diz que a campanha "Joga 10" foi concebida pela agência norte-americana da marketing que cuida da publicidade mundial da Nike, a Wieden & Kennedy. "A campanha tem várias peças publicitárias, não apenas esta que cita a camisa 2. A estratégia de marketing deve ser compreendida como um todo e não ter um outdoor analisado fora do contexto", afirma.

"A idéia surgiu a partir de pesquisas entre jovens de 14 a 16 anos e atletas. Ronaldinho, por exemplo, afirmou que em seus times de peladas sempre havia disputa pela camisa 10, enquanto ninguém queria usar a 2 ou a 3. O dado foi confirmado por pesquisas com os jovens", relata a gerente da Nike, reiterando que a campanha da empresa é destinada também aos demais países sul-americanos, além do Brasil -cujo capitão da equipe nacional veste justamente o uniforme "que ninguém quer".

Patrocinado individualmente pela italiana Lotto, Cafu é o único jogador a participar de três finais de Copas do Mundo e o recordista em partidas pelo time nacional, com mais de 130 aparições. Na Copa da Alemanha, deve se tornar o brasileiro com mais jogos em Mundiais -hoje ele tem 17, um a menos que Taffarel e Dunga.

Ontem, após o amistoso com a Guatemala, Cafu foi elogiado por Carlos Alberto Parreira, para quem ele atuou muito bem na vitória do Milan por 2 a 0 sobre o PSV no jogo de ida da Copa dos Campeões da Europa, na terça.

Uma das estrelas cuja presença é tida como certa na Copa da Alemanha, Cafu provavelmente será poupado do elenco que disputará a Copa das Confederações.

Marcado para a segunda quinzena de junho, o torneio na Alemanha, última competição oficial da Fifa antes do início da Copa do Mundo de 2006, deve ser usado como laboratório por Parreira para definir o elenco, incluindo o reserva de Cafu, que tentará o hexacampeonato mundial.

O são-paulino Cicinho, um dos que almejam a suplência do capitão, minimizou o efeito colateral da campanha publicitária da patrocinadora da seleção. "A camisa 10 sempre foi valorizada pelo que fizeram Zico, Pelé e Maradona. Acho que não há depreciação em jogar com a 2 e quero continuar usando esse número no São Paulo. Na seleção, se tiver que jogar com a 2 ou com a 13, não há problema nenhum", declarou ele.