Musas sem talento perdem espaço no esporte

 


Sábado, 16 de outubro de 2004, 10h11 Atualizada às 11h02
Musas sem talento perdem espaço no esporte

Allen Chahad e Cézar Martins

Um rosto bonito e um corpo atlético são suficientes para garantir o sucesso de uma mulher no esporte? Cada vez mais a resposta para esta pergunta é negativa. A beleza pode até abrir portas, mas as musas que não demonstram talento esportivo estão perdendo espaço no concorrido cenário mundial.

Além do público, os investidores também tendem a procurar as atletas de alto nível para apostar. Assim, as beldades carentes de títulos e marcas caem no esquecimento com o passar do tempo.

"O ideal seria unir as duas coisas: ser bonita e jogar bem. No caso da mulher, ajuda muito, porque tem diversos segmentos que podem atender o lado do patrocínio. Acho temeroso separar as duas coisas", lembrou José Carlos Brunoro, especialista em marketing esportivo.

A combinação perfeita dos fatores pode ser atualmente encontrada na nadadora norte-americana Amanda Beard, dona de cobiçados olhos verdes, um corpo escultural e sete medalhas olímpicas. Com apenas 14 anos, ela conquistou duas pratas e um ouro em Atlanta-1996. Quatro anos mais tarde, faturou um bronze em Sydney. O ouro e as duas pratas em Atenas, neste ano, transformaram a atleta de 22 anos em um dos "produtos" cada vez mais procurado por fãs e patrocinadores.

"A melhor publicidade para uma atleta é sua performance esportiva. Quando tem resultado, fica mais fácil trabalhar sua imagem. Se é bonita e joga mal, é um marketing é volátil. As empresas querem performance esportiva", avisou Brunoro.

O raciocínio explica o fato de Beard ter recentemente superado a tenista russa Anna Kournikova como a atleta mais procurada nos maiores sites de busca da Internet - Google, MSN, Yahoo e Lycos. Enquanto a morena coleciona medalhas, a loira jamais conquistou um título no circuito da WTA.

"O esporte é usado como trampolim mesmo. Mulheres bonitas entram e partem para outras coisas. Mas raríssimas exceções se deram bem fora do esporte. Afinal, assim como no esporte, na outra parte precisa também ter resultados", acrescentou Brunoro.

Assim, Kournikova, que se afastou das quadras por causa de uma lesão nas costas e nunca mais atuou profissionalmente, está com sua carreira esportista praticamente encerrada. Além disso, seu espaço na mídia e os patrocinadores estão desaparecendo. Atualmente ela é garota-propaganda da Adidas, Yonex (materiais esportivos), Berlei (roupas íntimas femininas) e Omega (relógios).

Por outro lado, a nadadora Beard vai faturando cada vez mais com seus parceiros: Red Bull (energético), Speedo (materiais esportivos), Oroweat Bread (pães), Xoom Juice (sucos), Therma Silk (cosméticos) e Mutual of Omaha (seguros). O acordo mais recente foi o feito com a Elite Modeling, empresa de modelos que promete espalhar ainda mais a imagem da norte-americana pelo mundo.

"Quando as pessoas me dizem que sou a Kournikova que vence, eu tomo como um elogio. Afinal, ela é maravilhosa. Eu levo o esporte muito a sério... É muito bom vencer e ser comparada com a Anna", disse Beard, que tem sua agenda lotada de compromissos esportivos e sociais até o próximo ano.

Consciência

A queda do regime comunista e a abertura do mercado na Rússia fizeram o capitalismo descobrir um terreno repleto de musas esportistas. A beleza da mulher russa encontrou a cultura por bons resultados no esporte, herdada dos tempos de guerra fria.

Assim, a ameaça de ostracismo de Kournikova pode servir de exemplo para as suas compatriotas. No próprio tênis, Maria Sharapova evita, com dificuldades, as comparações. Já no atletismo, Yelena Isinbayeva desponta como outra musa.

Sharapova, de apenas 17 anos, é loira e chama atenção pela beleza. Mas, diferente de Kournikova, já conseguiu cinco títulos de simples no circuito da WTA, além de Grand Slam, neste ano, em Wimbledon.

Já Isinbayeva, uma bela morena de 22 anos, é a atual recordista mundial do salto com vara. Além da medalha de ouro em Atenas, ela foi considerada em 2004 a atleta do ano pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (Iaaf).

E a pressão sobre elas promete ser grande. Todos estão de olho para saber até quando o bom desempenho será mantido.

Redação Terra