Revolução na Fórmula 1


Max Mosley, presidente da FIA, propõe mudar tudo na categoria a partir da temporada de 2008

LIVIO ORICCHIO - O Estado de São Paulo - 24 de abril de 2004

ÍMOLA, Itália - O presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), Max Mosley, quer mudar tudo na Fórmula 1. Não a curto prazo, mas a partir de 2008. O pacotão de Mosley revela nítida nostalgia dos tempos em que ele possuía a equipe March, no início dos anos 70. O dirigente distribuiu uma carta pública, informando as escuderias e a imprensa sobre o que propõe de alterações.

O ataque de Mosley pretende atingir as mais distintas áreas. "O motivo é simples'', disse. "Há sérias dificuldades para se encontrar patrocinadores e os custos crescem assustadoramente. Em breve teremos sérios problemas, daí agir já.'' O argumento do presidente da FIA é resgatar a importância do piloto. "As pessoas desejam assistir a uma competição entre seres humanos com máquinas de elevada performance.'' O curioso é que há dias o inglês vem defendendo mudanças na Fórmula 1 ainda para este ano, alegando que a categoria ficou "muito perigosa'' por ter se tornado de dois a três segundos mais rápida de 2003 para cá.

Os donos ou representantes das equipes estão convocados para participar de uma reunião dia 4 na sede do Automóvel Clube de Mônaco. "O Acordo da Concórdia nos obriga a anunciar o regulamento de 2008 até o dia 31 de dezembro de 2005, por isso estamos enviando uma proposta para discussão'', diz a carta da FIA. Dentre os objetivos descritos no documento estão:

melhorar a competitividade sem regras artificiais, aumentar a importância da habilidade do piloto, redução dos recursos eletrônicos, corte dos custos, facilitar a entrada de novos times no Mundial e completar o grid com 24 carros.

Entre as medidas mais importantes que estão na proposta (leia arte) estão a substituição do motor V-10 de 3,0 litros de hoje por um V-8 de 2,4 litros, a permissão de dois motores por fim de semana de corrida e central única de gerenciamento de todos os circuitos eletrônicos, distribuída pela FIA. O câmbio voltaria a ser semi-automático, acionado com os dedos através de alavancas atrás do volante.

Outras alterações significativas defendidas por Mosley são a diminuição da capacidade de geração de pressão aerodinâmica, o estabelecimento de um fornecedor único de pneus e a proibição de trocar os pneus durante a corrida, exceto em caso de furo.

Reações - Seria uma nova Fórmula 1. E muitos temem que nem seria mais Fórmula 1. "A transformariam na Fórmula 3000'', disse Felipe Massa, da Sauber. Já Patrick Dupasquier, da Michelin (concorrente da Bridgestone), ao ler que será aceito um único fornecedor de pneus, riu.

"Quanto mais essa gente faz para conter a Ferrari, mais ela continua vencendo sozinha'', disse Dupasquier. Depois, acusou: "A Ferrari não cumpriu o regulamento esta semana. São permitidos no máximo 50 quilômetros de testes nos 7 dias que antecedem a prova e eles percorreram mais disso em Fiorano.'' O francês referia-se ao teste realizado pelo supercampeão de MotoGP,Valentino Rossi, com o modelo F2004 da Ferrari, quarta-feira.

Mas houve quem reagisse com indignação, como Jarno Trulli, da Renault: "Só em 2008? Pode ser muito tarde. É preciso conter a velocidade desses carros já'', afirmou. O pacote não teve só contestações: "Sou a favor. Que graça tem você competir contra um piloto que dispõe de um carro dois segundos mais veloz por volta. Não dá para saber se você é bom ou não'', argumentou Cristiano da Matta, da Toyota.

Com muita probabilidade as montadoras, hoje proprietárias de várias equipes, vão discordar de Mosley. A maioria dos veículos de série que elas produzem teria tecnologia mais avançada que a F-1. E o maior apelo de marketing da F-1 é exatamente sua tecnologia ultra-avançada, que um dia chegará aos carros de série.