Negócios ao redor do esporte giram R$ 30 bi

Outubro 2003 - Panorama Brasil - Regina Ielpo

O esporte movimenta muito mais do que bolas e emoções. Em seu entorno são realizados negócios que vão desde o patrocínio até o licenciamento de marcas, passando pela venda de ingressos e produtos relacionados a times e categorias. Somente no ano passado, estima-se que as cifras tenham chegado a R$ 30 bilhões. Para discutir esse mercado, a Câmara Americana de Comércio (Amcham–SP) e a AllComm Partners realizaram, na última sexta-feira (22), o seminário “Novos Desafios dos Negócios do Esporte no Brasil”.

Para se ter uma idéia, apenas o licenciamento de marcas esportivas projeta um crescimento de 25% para este ano. “Em 2001, o segmento girou R$ 225 milhões”, afirma Carla Dualib, presidente da Sports Marketing Agency. Segundo ela, o futebol foi responsável por R$ 8 milhões desse faturamento.

“O grande vilão do segmento é a pirataria, que fatura cerca de cinco vezes mais do que os produtos licenciados”, diz Luciano Kleiman, diretor de marketing da Adidas. Ele explica que as marcas oficiais têm pouca margem para baixar preços, pois os produtos colocados à venda são os mesmos usados pelos esportistas. “É impossível manter padrões de qualidade e tecnologia e competir com a indústria pirata”, ressalta Kleiman. Para José Carlos Brunoro, diretor da Brunoro & Cocco Sport Business, somente o marketing esportivo foi responsável por um movimento aproximado de R$ 10 bilhões no ano passado. “Mas o Brasil tem possibilidades de atingir R$ 30 bilhões nessa área”, afirma.

Quanto ao potencial de retorno do investimento em esporte, o diretor cita o exemplo dos negócios impulsionados pelo sucesso do tenista Gustavo Kuerten, o Guga, há cerca de três anos. De acordo com Brunoro, o número de praticantes de tênis aumentou 50%, chegando hoje a 600 mil, sendo que os freqüentadores de academias passaram de 7 mil para 10 mil. Os produtos também renderam mais: a venda de bolinhas de tênis passou de uma média anual de 1,2 milhão de unidades para 2,9 milhões (+142%) e a venda de raquetes saltou de 60 mil para 140 mil (+133%). Segundo Brunoro, as companhias podem obter um ganho de US$ 8 a cada US$ 1 investido.

Patrocínio

É nesse retorno que apostam empresas como a MRV Engenharia, que patrocina o time feminino de vôlei do Minas Tênis Clube, de Belo Horizonte, desde 1996. “Investimos 1% da nossa verba de publicidade diretamente no time e a contrapartida é boa: R$ 3 para cada R$ 1 aplicado”, revela Eduardo Paes Barreto, presidente da MRV. A decisão de patrocinar um time de vôlei feminino, segundo o executivo, foi tomada com base em pesquisas de mercado. “O Minas foi escolhido por causa do forte apelo do clube junto à população da cidade”, completa Barreto. Para justificar o patrocínio, a MRV utiliza a imagem das atletas em ações comunitárias e propaganda.

A alemã Kärcher — fabricante de lavadoras de alta pressão — optou por ser uma das patrocinadoras da equipe Toyota de Fórmula 1, da qual faz parte o piloto brasileiro Cristiano da Matta. “A empresa investirá, até 2004, 15% da verba de publicidade global no patrocínio”, conta Abilio H. Cepêra, presidente da Kärcher no Brasil. Segundo ele, Cristiano da Matta fará parte das ações de divulgação da marca no País a partir do ano que vem.

Para o consultor Richard Law, presidente da International Sports Group, as empresas que realizam promoções em torno do patrocínio no qual investem estão no caminho certo. “É preciso associar a marca ao esporte realizando ações promocionais que atingirão o público”, ressalta Law. Segundo ele, além do futebol, o vôlei, a natação, o basquete e a vela são opções interessantes de patrocínio.

Grandes eventos

Richard Law ressalta que os Jogos Panamericanos de 2007, que acontecerão no Rio de Janeiro, são uma grande oportunidade de investimento para o governo e as empresas.

Essa opinião é endossada por Sérgio Almeida Oliveira, consultor de esportes e indústria de consumo da ATKearney. Segundo ele, o impacto dos mega-eventos esportivos pode atingir índices significativos como o retorno de US$ 16,5 bilhões obtidos com as Olimpíadas de Barcelona. Ele revela que os investimentos para os Jogos Olímpicos de 2012, para os quais o Rio de Janeiro é candidato a sede, já estão sendo idealizados. “Nova York planeja investir US$ 3 bilhões; Paris, US$ 4 bilhões e Londres US$ 4 bilhões”, diz o consultor.

Segundo ele, o Rio é uma cidade competitiva, pois os investimentos previstos para a realização dos Jogos Panamericanos de 2007 devem deixar a cidade praticamente pronta para receber uma Olimpíada. Oliveira lembra que a receita obtida com a realização de grandes eventos esportivos na América Latina deve crescer de US$ 3,8 bilhões (2001) para US$ 5,4 bilhões até 2005.

Papel do governo

De acordo com o secretário de Juventude, Esporte e Laser do Estado de São Paulo, Lars Schmidt Grael, o foco da sua gestão é a promoção de eventos regionais como as Olimpíadas Colegiais, que reuniram cerca de 250 mil atletas este ano. “Dos R$ 51 milhões que a secretaria tem à disposição, R$ 9,5 milhões são destinados para esses eventos”, afirma Grael.

Outro empreendimento que receberá investimentos do Estado — R$ 13 milhões — é a construção do Parque da Juventude, no local onde funcionava o presídio de segurança máxima, Carandiru. Para o secretário, São Paulo está carente de uma legislação de incentivo ao esporte, como já acontece no Rio de Janeiro, onde 2% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) são aplicados na área.