Domingo, 25 de março de 2001

Estado de S.Paulo


Nova economia ameaça o tênis


A ISL, que comprou os direitos de comercialização da ATP por dez anos pagando US$ 12 milhões, não estaria conseguindo repassá-los e manter os compromissos



Voltaram os comentários de que o tênis masculino está com péssima saúde financeira. Há quem diga que o esporte passará por mudanças impensáveis em um futuro mais próximo do que se imagina.

Há 16 meses, Mark Miles, o diretor executivo da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), apresentou um triunfante acordo com a empresa de marketing esportivo ISL, que comprara os direitos de comercialização do circuito masculino por US$ 12 milhões por dez anos.

Mas a realidade tem sido bem diferente. A ISL estaria encontrando sérias dificuldades para cumprir seus compromissos. E já avisou que não poderá manter os mesmos níveis de pagamentos para 2002. "O problema é que a ISL comprou os direitos em plena euforia da `nova economia' e começou a vendê-los em plena depressão. Não deixa de ser um golpe de má sorte", disse Butch Buchhloz, criador do Masters Series de Miami, à agência DPA.

Pelo acordo firmado no fim de 1999, a ATP cedeu à ISL os direitos de comercialização dos nove Masters Series e uma série de torneios a serem determinados. Na assinatura do contrato, como a ISL cumpria seus compromissos parecia razoável que a entidade ficasse com os direitos comercialização e de televisão.

Mas o que se diz agora é que a cessão de direitos está "estrangulando" financeiramente a ATP, o que pode ser refletir na organização dos torneios.

Mas a situação não é desespero. "A International Management Group (IMG) e algum aliado poderá lançar um circuito forte, unindo os torneios do Grand Slam com cinco ou seis Masters Series."

Os jogadores também são obrigados a disputar os nove Masters Series e quatro torneios do Grand Slam - Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e Aberto dos Estados Unidos -, mas a imposição não é aceita passivamente. O russo Marat Safin, que caiu na estréia em Miami, reclamou muito. Ele tem uma contusão nas costas. Mas se Safin deixar de jogar um dos torneios, seu "abono" concedido pela ATP, cairia de US$ 1,05 milhão para US$ 700 mil.

Safin disse que vai para a Europa descansar e fazer tratamento. Ele acredita que em um mês estará curado.


Tênis, F-1 e futebol A ISL, que comprou os direitos da ATP, é a maior empresa de marketing esportivo do mundo. Além do tênis, tem interesses na Fórmula 1 e no futebol - onde também estaria encontrando dificuldade para vender os direitos comprados da Fifa. "Acho que está sendo uma dura lição para a ATP e a ISL.

Voltaremos ao sistema de patrocinadores por torneios, que no caso de Miami bancam 60% dos investimentos. Apenas 10% são provenientes da comercialização dos direitos de televisão", afirma Buchhloz.

A ATP reduz drasticamente seus custos. Um exemplo pode ser visto em Miami este ano. Em 2000, o staff da entidade no torneio era de 15 pessoas. Em 2001 há apenas cinco.

O tênis não é o esporte que mais paga no mundo, mas Pete Sampras, o norte-americano número 4 na atualidade, de 29 anos, acumula US$ 41,314 milhões na carreira. O brasileiro Gustavo Kuerten, de 24 anos e cerca de seis como profissional, acumula US$ 9,214 milhões.

Entre as mulheres em atividade, a espanhola Arantxa Sanchez, de 29 anos, soma US$ 15,778 milhões. A suíça Martina Hingis, de 20, já fez US$ 15,709 milhões. Sem contar os patrocínios.

As irmãs Serena, de 19, e Venus Williams, de 20 anos, assinaram com uma marca de chicletes para ganhar US$ 7 milhões por três anos. Eles já haviam assinado com uma empresa de telefonia e outra de cosméticos. Em dezembro, Venus assinou contrato de US$ 40 milhões com uma marca de artigos esportivos por cinco anos - é considerada a maior soma paga a um esportista no mundo.

Há uma semana Serena foi muito vaiada pela torcida, na Califórnia, porque suspeitaram da "contusão" de sua irmã que seria sua adversária nas semifinais em Indian Wells. Serena foi campeã do torneio. E apesar das vaias, seus patrocinadores parecem muito satisfeitos.


Carlos Ferreira Lima