A logística do GP, como base para uma Olimpíada

Quarta-feira, 9 de abril de 2003 - DENISE MIRÁS - Jornal da Tarde


A logística do GP, como base para uma Olimpíada

A corrida de F-1 requisita serviços como transporte, segurança, emergências médicas, de forma tão eficiente - e tudo está sendo documentado em um livro - que servirá de laboratório de planos olímpicos

Nada menos que 6.500 pessoas trabalharam em Interlagos, para o GP do Brasil de Fórmula 1, com audiência de 900 milhões de telespectadores no mundo. Com esses números, Ricardo Leyser Gonçalves, chefe de gabinete da secretária Nádia Campeão, de Esportes, Lazer e Recreação do município, e também o coordenador da F-1, dá uma idéia da pressão do trabalho, que serve como laboratório para a "briga" de São Paulo, primeiro contra o Rio de Janeiro, pela candidatura à Olimpíada/2012.

Em seu terceiro GP, Leyser acumulou experiência em relação a organização e capacitação de pessoas, e ainda planejamento de reformas e recuperação, como do autódromo, muito útil para o desafio olímpico. E também na resolução de problemas: não dormiu de sábado para domingo, por exemplo, em alerta por causa das liminares relacionadas à proibição da propaganda de cigarros, da qual dependia a realização do GP.

O São Paulo Convention Bureau já fez parceria com a Secretaria para a Market System captar recursos para a publicação de um livro sobre o GP do Brasil, "vendendo" o potencial da cidade na organização de eventos. Esse livro, de 180 páginas, bilíngüe, deve ser lançado em dois meses e é responsabilidade de uma equipe coordenada pelo jornalista Alexandre Carvalho. Será um verdadeiro "raio-X" do GP.

"Este é o maior evento esportivo internacional em São Paulo. É óbvio que uma Olimpíada é 25 vezes maior, mas isto é a micro-escala da coordenação de transporte, segurança, alojamento, atendimento médico, abastecimento de água, fornecimento de luz...", diz o coordenador do GP, que tem 32 anos e formação em consultoria e gestão do terceiro setor, além de administração pública e ciência política.

Para Leyser, houve uma evolução grande na capacidade da prefeitura de organizar o evento, assim como das próprias pessoas envolvidas. São 50 pessoas trabalhando seis meses apenas para o GP na Secretaria, mas na semana da corrida esse número sobe a 5 mil, contadas todas as áreas, de transporte, segurança etc.

Este ano o desafio foi duplo. Junto com o GP, a Seme também tinha o comitê de postulação trabalhando pela "pré-candidata" olímpica, contra o Rio de Janeiro (a escolha será em 7 de junho). Leyser destaca a "sintonia fina" do município com o Estado e a iniciativa privada, para depois destacar: "Temos de entregar os dossiês para o Comitê Olímpico Brasileiro até o dia 15, para começarem as visitas."


O esporte, como 'motor' da cidade

Alexandre Carvalho é o responsável pelo livro sobre o GP, que terá mais cinco jornalistas e três fotógrafos, um deles apenas para fotos de bastidores em preto e branco.

Trabalhando 18 horas por dia há duas semanas, Alexandre diz que estão sendo levantadas todas as informações sobre o GP, da Limpurb - quantas pessoas estão envolvidas e o que fazem -, até a operação logística de transporte dos carros da F-1 do aeroporto até o autódromo e vice-versa. "A CET, por exemplo, faz uma ponte com agências de turismo para traçar o trajeto dos ônibus, credenciais... São três dias de GP mas o trabalho é pelo ano e é preciso uma capacidade incrível para gerenciar tudo." Alexandre se diz surpreso justamente com "o esporte movendo a engrenagem de toda uma cidade".

No livro há a apresentação dos planos de turismo e marketing da prefeitura e depois são dissecados os órgãos municipais relacionados, como esquema tático de transporte, segurança, polícia federal, vigilância sanitária, turismo, habitação, obras, dentre outros.

Também estará documentada a International Promotions, responsável pelo GP, com sua logística - até para VIPs e helicópteros. "No caso da tevê para a prova, o sistema foi desenvolvido no Brasil, com 25 câmeras, 16 delas do autódromo e nove da Rede Globo, e é incrível." (Tanto que poderá ser adotado como padrão pela Federação Internacional de Automobilismo para os demais GPs.) Diretamente sobre a corrida, há a tecnologia, o desembarque e a movimentação de cargas nos boxes, pilotos e carros na pista, centros VIPs de empresas, estandes fora do autódromo.

"Ainda haverá um guia, com números da cidade e do evento, tabelas, dados dos órgãos municipais envolvidos", diz Alexandre. Tudo sobre o GP, para ser maximizado no caso de uma Olimpíada.