Clubes reduzem custos para driblar crise


Quinta-feira, 18 de julho de 2002 , O Estado de São Paulo

Clubes reduzem custos para driblar crise
Apesar do penta, cartolas são obrigados a adaptar folha de pagamento à realidade do País
WAGNER VILARON

No primeiro semestre, quando a seleção ainda disputava, de forma capenga, as eliminatórias para a Copa do Mundo da Coréia e do Japão, a cartolagem brasileira já estava com o sinal de alerta ligado. O principal problema era descobrir como os clubes sobreviveriam financeiramente após o Mundial. O consenso era de que a segunda metade do ano seria 'desastrosa' e os cofres, por melhor que fosse o material utilizado na fabricação, não resistiriam à incompetência e amadorismo daqueles que administram o futebol no Brasil.

Veio, então, o pentacampeonato. E com ele a esperança de que a conquista na Ásia expusesse o País internacionalmente e atraísse os tais investimentos considerados imprescindíveis para manter a 'saúde' financeira dos clubes.

Porém, pouco mais de duas semanas após a vitória sobre a Alemanha, a realidade se mostra dura. "Essa história de que as coisas vão mudar por causa da Copa não existe", afirmou o sócio da agência de marketing esportivo Traffic, J. Hawilla. "Passado o oba-oba, todos vão ver que a realidade está tão ruim ou pior do que antes. Ainda mais depois de terem desfigurado a Lei Pelé. Isso tornou o Brasil um local pouco atraente para esse tipo de investimento. " E ao que tudo indica, no melhor estilo dos contos de fadas, parece mesmo que a carruagem já virou abóbora e o tempo para usufruir do penta nem existiu.

Se de um lado sobram desiguldades entre os clubes brasileiros, de outro há um detalhe que os une: o desespero em economizar dinheiro e buscar novas fontes de renda. O resultado? Cortes drásticos nas folhas de pagamento e jogadores insatisfeitos com a necessidade de redução dos salários.

As principais vítimas são mesmo os grandes clubes. Alguns deles, como Corinthians, Cruzeiro, Flamengo e Vasco, chegaram a manter folhas de pagamento superiores a R$ 2 milhões/mês. Hoje, procuram renegociar contratos e estipulam tetos salariais. A média é de R$ 150 mil. O problema é convencer atletas acostumados com valores bem superiores. "Nesse caso, tem de entender a situação. No mais, os clubes precisam se profissionalizar. Mas isso não quer dizer dar um salário ao diretor de Futebol. O presidente precisa ser um executivo", disse Hawilla.


Caras novas - Mas o drama não é ruim para todos.

Para os atletas sem fama ou formados no próprio clube, o mercado está aberto. Sem dinheiro, a alternativa é buscar jogadores baratos. O Palmeiras, por exemplo, conta com apenas dois 'famosos' em seu grupo: o goleiro Marcos e o lateral-direito Arce, que terá Leonardo como seu substituto. No São Paulo, a aposta ainda é o novato, mas já reconhecido, Kaká. O Corinthians se esforça para manter o mesmo grupo. Contratações, porém, nem pensar. No Santos, cuja diretoria alega ter uma folha de R$ 250 mil, a expectativa é o jovem meia Diego. As negociações com jogadores na Vila Belmiro resumem-se aos tribunais. Não faltam processos por falta de pagamento.


Rio - Nem a tradicional picuinha entre Flamengo e Vasco, que se traduz, entre outras formas, na briga pela contratação de jogadores, resistiu ao período de 'vacas magras'. O time de Eurico Miranda buscou reforços em equipes pequenas do Estado, enquanto na Gávea a aposta são os 'pratas da casa'. "Consegui a proeza de reduzir a folha mensal de salários de R$ 3 milhões para R$ 557 mil. Montamos um bom time, com jogadores formados nas divisões de base", afirmou o vice-presidente de Futebol do Flamengo, Walter Oaquim. (Colaborou Michel Castellar)