Atletas empreendedores sociais e as novas gerações

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Viviane Senna - Presidente do Instituto Ayrton Senna


O esporte é uma das mais fabulosas ferramentas que o deficiente dispõe para redescobrir a vida social. É também o campo no qual colhe as melhores provas de sua capacidade de potencialização e reabilitação. Ao abraçar a prática esportiva, ele percebe que esforço e dedicação são as chaves para conseguir qualquer coisa. Se um deficiente físico é capaz de jogar basquete ou tênis, então ele é capaz de fazer muito mais. Enfrentando com valentia suas próprias limitações físicas, passa a procurar também outras atividades que até então achava inatingíveis: trabalhar, namorar, casar, estudar, conhecer novos amigos etc.

É uma pena que o esporte adaptado no Brasil seja tão pouco desenvolvido e incentivado. Nosso País não possui quase nenhuma tradição. Os recursos são escassos, há poucos investimentos e a divulgação é quase inexistente. A nossa cadeira de rodas adaptada é uma carroça se comparada à dos norte-americanos. É como se fosse imaginar Ayrton Senna correndo com um Fusca... Mas, mesmo assim, os atletas assimilam as diferenças e seguem em frente.

A solução dos problemas do deficiente físico depende dele próprio e, sobretudo, da compreensão e cumplicidade dos mais diversos setores da sociedade. É comum ver o deficiente, depois de ter adquirido essa condição, enclausurar-se por anos em sua casa, seja por vergonha e revolta, seja pela falta de espaços públicos adequados que lhes dêem o mínimo de condições de acesso e conforto.

É preciso acabar com os estigmas que são associados ao deficiente. Precisamos tirar da cabeça a imagem de que ele é um “coitadinho”, incapaz de sair da cama sem a ajuda de alguém. Ao assistir a um treino de uma equipe de basquete em cadeira de rodas, é possível ver que o clima é de alto astral para cima. Os atletas têm prazer em jogar. Isso por si só já é uma vitória.

Algumas entidades e órgãos, a despeito da enorme dificuldade encontrada, trabalham para reversão dessa realidade. A Associação Desportiva para Deficientes (ADD), por exemplo, busca reintegrar o deficiente à sociedade através da prática esportiva, investindo no desenvolvimento e na profissionalização do esporte adaptado. E a ADD vai além. Seu objetivo não é apenas formar atletas. É reintegrar o deficiente à sociedade, formando cidadãos preparados para superarem preconceitos e medos.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil possui de 15 a 20 milhões de deficientes. Grande parte deles pertence às classes A e B. Os empresários, órgãos públicos e a sociedade em geral ainda não têm consciência desse número. Quem quiser investir nessa área, entrará em contato não apenas com os deficientes, mas também com seus familiares e amigos, o que significa atingir um universo de mais de 125 milhões de brasileiros. É um mercado gigante, intacto e especialmente atraente quando se levam em conta as necessidades dos deficientes em obter produtos e serviços que facilitem suas vidas.

O investimento de grandes empresas como Casio Service, 3M, Ipiranga Química vem ajudando o esporte adaptado a obter crescente divulgação na mídia e a conquistar o interesse cada vez maior da sociedade. Profissionais de marketing esportivo dizem que investir em esportes pode render 10, 15 vezes o valor aplicado em termos de retorno de imagem institucional e fortalecimento da marca da empresa.

A Paraolimpíada de Sydney (Austrália), realizada no ano passado, demonstrou a capacidade e o potencial de nossos atletas. A delegação brasileira foi composta por 64 atletas que trouxeram 22 medalhas para o Brasil — seis de ouro, dez de prata e seis de bronze. Houve um envolvimento maior da mídia no sentido de divulgar a participação e desempenho desses atletas, mas isso não é suficiente: ainda há muito por fazer.

A chave para a solução desses problemas? Informação. As crianças, que são os líderes de amanhã, devem conhecer essa realidade. Os empresários precisam perceber que o deficiente representa um vasto mercado consumidor. Acima de tudo, acredito que cada um pode fazer um pouquinho. As ações, somadas, são o caminho para a construção de um grande ideal e de uma sociedade melhor para todos.