Marcas disputam, de olho na pirataria


Sábado, 15 de junho de 2002 - 14h55 - Estadão.com.br
Marcas disputam, de olho na pirataria


São Paulo - Os jogadores da seleção brasileira têm uma relativa folga entre uma partida e outra na Copa do Mundo, mas o mesmo não acontece na disputa entre as empresas de material esportivo, que utilizam o Mundial como sua maior vitrine: depois de usarem chinelos prateados nas concentrações coreanas, os atletas deverão agora exibir tênis e sapatilhas nas cores verde e amarelo, produzidos pela mesma empresa, a Nike, que tem um contrato exclusivo com a CBF. Mesmo aqueles que têm acordos com fábricas concorrentes, só poderão utilizar outra marca que não a da americana nas chuteiras e apenas durante as partidas.

Trata-se de mais uma estratégia da Nike na acirrada disputa entre as empresas de material esportivo, que brigam pela preferência de um mercado mundial que ultrapassa os US$ 20 bilhões anuais. Uma batalha que envolve principalmente a televisão como arma, uma vez que cerca de 42 bilhões de telespectadores deverão acompanhar todas as partidas da copa, segundo o Comitê Organizador. "Só o fato de a nossa marca estar estampada em uma placa na lateral do campo e ser projetada durante uma partida já nos dá um enorme retorno", comenta Luciano Kleiman, gerente de marketing da Adidas brasileira, a principal concorrente da Nike.

As duas marcas disputam a maior fatia do faturamento mundial: enquanto a Nike ganha mais de US$ 9 bilhões anuais, a Adidas consegue US$ 6,1 bilhões. A exposição na Copa, porém, inverte a situação – a empresa alemã veste dez seleções enquanto a americana, oito. Além disso, a Adidas oferece o vestuário de 64 árbitros, 768 gandulas, 2.560 assistentes e 24 mil voluntários no Japão e na Coréia. As supresas na classificação da primeira fase, porém, tiraram de campo importantes garotos-propaganda, como Argentina e França, que usam Adidas, e Portugal, que veste Nike.

Aumento – O efeito é imediato. "No momento em que a Espanha começou a colecionar vitórias, a venda de seu uniforme subiu e praticamente esgotou o estoque das lojas brasileiras", conta Kleiman que, como os demais profissionais do setor, não divulga números precisos do crescimento. A expectativa, porém, é que o Mundial promova um aumento médio de 20% nos artigos esportivos de todas as empresas.

Os preços são variáveis. A camisa da seleção brasileira é, disparado, a mais cara e apresenta duas versões: a com forro, desenvolvida especificamente para as condições climáticas que os jogadores encontram no verão coreano e japonês custa R$ 200 e a sem forro, menos trabalhada, R$ 120. A expectativa da empresa é vender o triplo do volume comercializado em anos sem Copa do Mundo. "Por enquanto, as vendas estão de acordo com o esperado", anuncia o departamento de comunicação da Nike do Brasil.

Já as camisas das dez seleções (com destaque para Alemanha) confeccionadas pela Adidas custam, em média, R$ 90. Entre as outras marcas, a grande novidade é apresentada pela Umbro, que veste a Inglaterra e Irlanda e que confeccionou o uniforme utilizado pelo Brasil na Copa dos Estados Unidos, em 1994: uma camisa especial da Inglaterra com dupla face, nas cores vermelha e azul, com preço estipulado em R$ 150. A expectativa da empresa é contabilizar, nas vendas de maio a julho, um aumento de 30%. Finalmente, os aficcionados da seleção da Itália dispõem da camisa produzida pela Kappa, ao preço médio de R$ 140.

A Copa do Mundo é uma poderosa alavanca também para as empresas que não apostam diretamente no futebol. É o caso da Reebok, que privilegia esportes radicais e de performance. "Conciliamos as competições que são patrocinadas pela empresa com o Mundial", afirma Raul Abissamra Filho, supervisor de Marketing Esportivo da Reebok. "Assim, a terceira etapa do Campeonato Mineiro de mountain bike, patrocinado pela empresa, vai acontecer logo depois do final da Copa, no dia 30, quando o público e os participantes estarão juntos acompanhando o jogo." A estratégia tem sido positiva e a Reebok faturou, em maio, 25% a mais que no mesmo período do ano passado.

Se travam entre si uma luta leal, as empresas se unem contra um adversário mais poderoso e responsável por prejuízos consideráveis: a pirataria, que, segundo estatísticas das mesmas empresas, tem um aumento de até 60% durante a Copa do Mundo.

A ação é predatória: a cada duas camisas da seleção brasileira vendidas, uma é falsa, segundo levantamento da Nike. Para tentar evitar tal desfalque, a empresa contratou três escritórios especializados em pirataria, que promovem fiscalizações-surpresa em áreas de maior venda, como regiões próximas de estádios.

Blitz – A Nike tem um plano de combate à pirataria que já apreendeu cerca de 140 mil pares de tênis, 965 mil peças de vestuário e cerca de 5.375 demais produtos (bonés, relógios, óculos, bolsas e meias) de janeiro de 2001 a maio deste ano. Ações já ocorreram nas galerias do Rock e Pajé, em São Paulo, além de apreensões em cidades do interior e do litoral paulista, Curitiba e nos Portos de Santos e Rio Grande (RS).

"Calculamos que no ano de 1999, 1 milhão de tênis piratas com a marca Nike foram comercializados no Brasil. No ano 2000, quando realizamos várias operações de apreensão, estimamos que o número caiu para 800 mil pares, que representam cerca de R$ 40 milhões por ano. Ainda é um número muito grande", explica Fábio Espejo, diretor financeiro da Nike do Brasil. A empresa estima também que cerca de R$ 10 milhões por ano em confecções e acessórios com a marca falsificada são comercializados no Brasil. Para combater a pirataria, a Nike investe R$ 400 mil por ano.

Além de utilizar um produto de qualidade inferior (tecido menos trabalhado, costura manual, desenhos mal acabados), os fabricantes piratas oferecem um material que representa perigo à saúde. "Temos laudos de especialistas em biomecânica e ortopedia que mostram que o uso sistemático do tênis falsificado pode acarretar lesões nos tendões, no aparelho extensor do joelho, possibilitando até o aparecimento precoce de artrose", esclarece Espejo.


Ubiratan Brasil