Estádios são novo filão de investimentos no País

 

Empresas estrangeiras estão de olho na construção ou reforma de arenas para futebol e outros eventos


MARCELO REHDER

Os investidores estrangeiros, que nos últimos anos concentraram suas apostas em setores tradicionais como telefonia, energia elétrica e bancos, agora estão de olho em um novo filão de negócios no Brasil. Grandes empreiteiras e construtoras dos Estados Unidos e da Europa têm cerca de US$ 500 milhões reservados para construção ou reforma de pelo menos dez estádios de futebol no País nos próximos dois anos, segundo a consultoria Deloitte Touche Tohmatsu.

Esses recursos serão destinados a projetos de construção de estádios que seguem o novo modelo adotado por grandes clubes americanos e europeus. Além de uma arena poliesportiva, esses estádios reúnem uma oferta maior de serviços, que vão desde restaurantes, lojas e estacionamentos até áreas para shows, cinemas e hotel. No exterior, tais complexos são conhecidos por centros de entretenimento e negócios (entertainment and business center).

De acordo com o diretor e consultor de Negócios Esportivos da Deloitte, Alexandre da Rocha Loures, o novo modelo chega para substituir as recentes - e em muitos casos malsucedidas - parcerias e contratos de co-gestão fechados entre clubes e empresas de marketing esportivo e fundos de investimentos.

A exploração das atividades comerciais passaria a ser feita pelos investidores, por meio de empresas especializadas na administração de estádios e controladas por eles, enquanto os clubes manteriam as fontes tradicionais de renda. Entre elas estão a venda de ingressos, os direitos de exploração de imagem, o patrocínio de camisas e a comercialização de direitos federativos dos passes de jogadores.

A consultoria, que vem prestando assessoria a grandes clubes do futebol brasileiro, em contatos com investidores internacionais identificou o interesse de diversos grupos, especialmente de portugueses, italianos, ingleses e americanos, em financiar esse tipo de projeto no País. As negociações já estão em andamento com clubes paulistas, mineiros, gaúchos e do Nordeste do País, entre outros, cujos nomes o consultor faz questão de manter em sigilo.


Dianteira - O Esporte Clube Vitória, da Bahia, saiu na frente e já fechou acordo para construção de um estádio multiuso com um grupo de investidores liderado pela Edifer Concessões, empresa da Organização Edifer, um dos maiores grupos privados de Portugal, que tem na construção civil sua principal atividade.

Segundo o presidente do Vitória, Paulo Carneiro, estão previstos investimentos totais de US$ 50 milhões para a construção do estádio multiuso, que terá capacidade para 30 mil pessoas, podendo ser ampliado para 40 mil lugares, que deverá ficar pronto em 2004. A parceria vale por 30 anos, período em que os investidores vão pode explorar os serviços oferecidos no estádio multiuso.

Os planos são ambiciosos. Está prevista a construção de uma área VIP com 2,5 mil poltronas especiais dotadas de monitores, onde se poderá ver os lances da partida de vários ângulos, por meio de circuito interno de TV. Nessa área, haverá também 150 camarotes com capacidade para 12 pessoas cada um, que deverão ser oferecidos a empresas interessadas em desenvolver políticas de relacionamento com clientes e fornecedores. Nos Estados Unidos e na Europa, grandes companhias compram o direito de uso desses espaços por temporada.

Além do futebol profissional, o complexo do Vitória terá uma miniarena para cerca de 4 mil pessoas, voltado para esportes olímpicos indoor. Mas não vai se restringir somente às atividades esportivas. Ele deverá funcionar diariamente, independentemente do calendário do Vitória. Pelo projeto, haverá um anfiteatro com capacidade para 40 mil pessoas e um centro de convenções para realização de feiras, congressos e reuniões de empresas, além de bares e restaurantes.

Os clubes que queiram se candidatar a receber esse tipo de financiamento têm literalmente de pôr a casa em ordem, contar com uma estrutura profissional e mostrar que são capazes de serem rentáveis a longo prazo. "Dinheiro para a modernização de nossos estádios existe. O que falta é maior organização, planejamento e principalmente transparência por parte dos clubes para conquistar a confiança dos investidores estrangeiros", observa Loures, da Deloitte.

Para ele, o novo modelo deve contribuir para acelerar a profissionalização dos clubes de futebol brasileiros. Como os clubes deverão passar a contar com moderna infra-estrutura e novas fontes geradoras de receitas, no futuro eles não precisariam vender seus jogadores mais talentosos para pagar dívidas, o que seria um sinônimo de garantia de espetáculo.